Apresentação...

Alice Patrício desde 1964, procuro diversificar a minha área de interesses o mais possível, prezo a liberdade, gosto de viajar e sou zelosa pela família.

Psicóloga Clínica na PsicoMindCare – Associação de Psicologia, de onde sou sócia fundadora e, actualmente, Presidente da Mesa da Assembleia Geral.

Faço intervenção em clínica privada, preferencialmente com adultos e idosos.

Experiência em meio hospitalar no âmbito do acompanhamento psicológico em doenças crónicas.

Interesso-me especialmente por áreas como a avaliação psicológica, o acompanhamento psicoterapêutico, a intervenção psicoeducativa e técnicas de relaxamento.

Especificamente em termos de público alvo:

- Jovens Adultos: auto estima / auto conceito; imagem corporal, desenvolvimento de competências sociais.

- Adultos: ansiedade generalizada; ansiedade social; depressão; ataques de pânico; burnout; auto estima; stress; stress pós traumático; separação e divórcio; aconselhamento parental; doença crónica; imagem corporal; perturbações de comportamento; perturbações de personalidade.

- Idosos: processos de envelhecimento e demência; promoção de uma vida saudável; redução de capacidades cognitivas; apoio psicológico a cuidadores.


Em termos formativos e académicos:

Curso de Formação em Demência: O Psicólogo no Rastreio, Avaliação e Intervenção (Ordem dos Psicólogos Portugueses)

Curso de Introdução às Psicoterapias Cognitivo – Comportamentais de 3ª Geração (INSPSIC – Instituto de Formação Avançada / Instituto Português de Psicologia)

Curso Intensivo de Terapia Familiar (ReConstruir – Psicologia e Desenvolvimento Pessoal)

Mestrado em Psicologia Clínica pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA)

Licenciatura em Ciências Psicológicas pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA)

Licenciatura em Antropologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH – UNL)

 

Membro Efectivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP)
www.doctoralia.com.pt/medico/patricio+alice-14624655
www.encontreumasaida.pt

a.patricio.psicologia@gmail.com

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“NÃO DEIXE PARA AMANHÃ O QUE SE PODE COMER HOJE!” - ADIÇÃO E COMPULSÃO POR COMIDA

Há alimentos que sabemos que se provarmos, ainda que sem fome, dificilmente vamos conseguir parar de os comer até acabarem. Mesmo quando achamos que já é suficiente ou ultrapassada a dose. Essa crença de que precisamos acrescentar mais um bocado domina o nosso cérebro, neutraliza-nos e, sem distinção por faixa etária, género ou classe social, a acção domina o pensamento – ou como preferem certos autores, “a mente torna-se refém do corpo”.

Mas podemos chamar isso de adição?

A adição não passa por ser uma decisão, até porque, nestes casos, esse controle perde-se e persiste o registo. É uma dependência física e psicológica, como por uma droga, álcool, tabaco, jogos, mentira, entre outros.

Qualquer adição configura-se como uma tentativa tranquilizadora, de curto prazo, de preencher o vazio de não ser, de resolver um problema, uma investida para manter afastadas da consciência experiências percepcionadas como dolorosas, angustiantes, de ódio, de culpa ou de qualquer outro estado de tensão psíquica. Pretende ser uma busca de significado para a vida, mas passa, sobretudo, por uma falha no desenvolvimento psico-emocional com associação a patologias, com sofrimento psíquico persistente, que nos afecta o estado de humor, o comportamento e as inter-relações. Concretamente no âmbito alimentar, os nossos sentimentos mais íntimos expressam-se no que escolhemos comer e na forma como comemos, sendo que a comida não é o real problema, mas uma forma de lidar com o problema.

Longos períodos vivenciando situações de stress vão estimular a hormona adrenalina, levando-nos a consumir mais açúcar e gorduras e a suscitar em nós sensação de mais calma. Na outra face da moeda, estudos vêm referindo que a ingestão aditiva constante de açúcar produzirá alterações neurológicas com efeitos no comportamento semelhantes à adição à cocaína.

Exemplificando, chocolates, batatas fritas, snacks muito salgados ou muito doces são produtos popularmente reconhecidos como “adictos” ao paladar, raramente ocorrendo o mesmo com um prato de sopa ou um prato de vegetais acabados de colher da horta. A justificação é que percepcionamos sobretudo os alimentos ultra processados e de sabor mais intenso, algumas texturas mais suaves ou crocantes como reconfortantes.

Já a compulsão alimentar por determinado produto difere da adição pela voracidade recorrente com que se come, inferindo-se aqui uma perturbação alimentar circunstanciada, previamente, por um quadro de ansiedade, de depressão ou até por algum desequilíbrio metabólico. Por exemplo, num impulso, come-se um pacote de bolachas porque a vontade de comer é tanta, que não se pode esperar para a satisfazer. Ainda que o alimento coincida com qualquer um dos referidos como exemplo no caso das adições.

Para ambos os casos, agravado com eventual falta de rotinas das comidas / refeições há quem atribua a designação de “comedores caóticos”. Igualmente, decorrente de ambas as situações, os distúrbios alimentares que mais se destaca como consequência são a obesidade e a bulimia. Ou seja, as actuações aditivas e/ou compulsivas expressam-se no corpo por dificuldade em conhecer ou aceitar a incerteza, em elaborar experiências sensoriais – ou estas somente delimitadas a gratificações orais sobre fantasia de segurança e de afecto – em ressignificar sensações e emoções e, como resultado disto, comprometimento da capacidade de pensar. Conforme uma abordagem psicanalítica, como se o objecto transicional vulgarmente usado pela criança (chucha, fralda, peluche) deixasse de ser transitório para passar a definitivo em idades posteriores. Ou como se a comida existisse para ser sobrevalorizada como forma de comunicar e substituir sentimentos e afectos.

Em termos de tratamento, sem dúvida que o melhor caminho é o da prevenção, com a participação conjunta da família (especialmente em casos de crianças e adolescentes) e dos clínicos (endocrinologista, nutricionista, psicólogo). Uma vez o problema já instalado, a família continua a ser um parceiro relevante pois muitas vezes facilita tais gratificações imediatas, não interferiu nem interfere convenientemente no controle dos impulsos e, outras vezes, também já transporta sintomas de obesidade ou de bulimia.

Paralelamente a um acompanhamento técnico à medida de cada um, ajudará:

- Reparar como o corpo reage a situações de stress;

- Procurar actividades alternativas que o/a satisfaçam e o/a mantenham distante da comida fora dos horários habituais das refeições;

- Redescobrir a comida como modo de vida saudável, aprendendo mais sobre o seu valor nutricional e ajustamento ao metabolismo de cada um;

- Praticar técnicas de relaxamento.

Alimentarmo-nos é uma actividade fisiológica normal… sempre que conseguimos ter uma relação normal com o nosso corpo.

  

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare – Associação de Psicologia

ANOREXIA NERVOSA

Foto: Infomédica.Wikia

A Anorexia constitui uma perturbação alimentar grave e infere uma (ou mais uma) forma de expressar, através do corpo, o que não se consegue revelar de outro modo. Caracteriza-se por:

- Perda acentuada de peso

- Restrição alimentar auto-imposta

- Medo intenso de aumentar de peso

- Negação da gravidade do estado nutricional

- Auto-imagem distorcida do respectivo peso corporal (percepcionando-se com mais peso do que, efectivamente, se verifica)

- Dificuldades nos relacionamentos interpessoais e favorecimento do isolamento

- Insegurança

- Baixa auto-estima

- Baixa autonomia

- Maior rigidez de pensamento

- Restrição do campo de interesses (sobretudo confinado à comida, à dieta, ao peso, à forma corporal)

- Obsessões.

Esta perturbação alimentar pode apresentar complicações orgânicas ao nível do sistema endócrino, gástrico, cardiovascular, ortopédico, dentição, além de manifestar consequências na capacidade de aprendizagem e no desenvolvimento cognitivo, de um modo geral.

Perante as consequências vitais, a primeira fase do tratamento passará por garantir a recuperação nutricional (se necessário, por meio de internamento). Seguidamente, importa accionar o acompanhamento clínico, em parceria conjunta e interdisciplinar, nos âmbitos psicológico, médico e dietético. No que diz respeito à intervenção psicológica, em consultório, para casos de Anorexia Nervosa haverá toda a vantagem em, paralelamente, verificar-se a colaboração de pais, cônjuges ou outros cuidadores destes pacientes nas tarefas de “trabalho de casa” aconselhadas (caso a caso) pelo Psicólogo Clínico e que tenderão a atingir como objectivos: ajudar o paciente a desenvolver uma auto-estima positiva; estimular a pessoa a ser cada vez mais autónoma - mesmo que para isso se tenham de flexibilizar regras anteriormente estipuladas; respeitar a privacidade do paciente; cultivar relações positivas com o paciente, apelando-se a métodos comunicacionais não conflituosos; incentivar a expressão mútua de sentimentos (tanto por parte do paciente como por parte dos que lhe estão próximos).

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare – Associação de Psicologia

ATAQUES DE PÂNICO E PERTURBAÇÃO DE PÂNICO

Ataques de pânico são ocorrências intermitentes de medo ou desconforto intenso, de resposta súbita, com necessidade imediata de fuga e que são acompanhados pelo surgimento de hiperexcitação fisiológica (Barlow, 2002). A Perturbação de Pânico pressupõe a vivência de episódios recorrentes, sem causa externa identificável.

Efectivamente, o pânico apresenta-se, em clínica, como a manifestação mais clara de medo, tendo subjacente ansiedade incontrolável intensa, ou perturbação do humor, ou perturbação induzida por substâncias. Inclusivamente, indivíduos com sintomatologia de pânico têm maior sensibilidade à ansiedade aumentada e estão mais vigilantes para sensações físicas associadas com a ansiedade.

Existem relatos de extrema angústia, de terror durante um ataque de pânico, chegando a interpretações catastróficas como por exemplo, de morte. No entanto, as tentativas de suicídio na perturbação são estatisticamente pouco significativas e as que se verificam devem-se, sobretudo, a comorbilidades psiquiátricas.

O ataque de pânico “típico” dura entre 5 – 30 minutos, em geral atinge o seu pico ao fim de 10 minutos, embora o estado aumentado de ansiedade possa prolongar-se por mais tempo após o episódio de pânico. De acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM) publicado pela American Psychiatric Association, os sintomas somáticos e/ou cognitivos podem passar por: palpitações, batimentos cardíacos ou ritmo cardíaco acelerado; suores; estremecimentos ou tremores; dificuldades em respirar; sensação de sufoco; desconforto ou dor no peito; náuseas ou mal estar abdominal; sensação de tontura, de desequilíbrio, de cabeça oca ou de desmaio; sensação de irrealidade (desrealização) ou sensação de desligamento de si próprio (despersonalização); medo de perder o controlo ou de enlouquecer; medo de morrer; parestesias; sensação de frio ou de calor…

Excluindo uma situação médica simultânea (que se deve despistar, primeiramente!), o fundamental na patogénese do pânico não são os sintomas fisiológicos mas sim como é que esses sintomas ou sensações corporais são interpretados. No caso, a “boa” notícia é que são erroneamente interpretados e acompanhados de preocupação excessiva com automonitoramento de sintomas físicos.

Uma das características dos ataques de pânico é a resposta inesperada; contudo, há um conjunto de situações que podem fazer disparar o episódio, seja por exposição a uma circunstância stressora (por exemplo, uma situação negativa identificada com locais onde possa ter ocorrido um primeiro ataque de pânico: supermercado, restaurante, cinema, um meio de transporte…) ou por sinal interno (pensamentos, sentimentos ou sensações corporais), passados ou presentes.

A presença de medo, que neste caso evolui para o catastrofismo e comportamentos de evitamento perante situações consideradas activadoras de uma crise de pânico, que têm por base um processo de enviesamento da informação ao nível da atenção e da memória, de baixa percepção de controlo sobre a ameaça e sem espaço para outros conteúdos mentais, é o que diferencia um ataque de pânico de outras perturbações de ansiedade.

Dada a grande intensidade das manifestações corporais, comumente associadas pelo paciente a perda de controlo, a morte eminente, a atitude passa a ser:

- De evitamento (hipervigilante, mal adaptativo) de actividades rotineiras, recurso a estratégias de busca de segurança na tentativa desesperada de controlar a ansiedade e de prevenir outros ataques de pânico, sempre com grande intolerância à ansiedade e, naturalmente, à confiança. Daí o pânico e a agorafobia (ansiedade por estar em locais ou em situações donde a fuga se possa considerar difícil) estarem muitas vezes associados. Mas não terá de ser regra. Existe perturbação de pânico com agorafobia e neste caso, sujeito a outras comorbilidades como a depressão major (por vivência de inferioridade e incapacidade, isolamento, vivência nosofóbica, hipocondria…), a perturbação de ansiedade generalizada ou a fobia(s) específica(s), como também existe perturbação de pânico sem agorafobia e agorafobia sem histórico de perturbação de pânico;

- De ansiedade antecipatória, ou seja, na possibilidade de ficar ansioso(a), no “medo de ter medo” ou no medo de sofrer novo ataque de pânico.

Em qualquer uma destas estratégias de defesa, acaba por se gerar um ciclo vicioso que em nada diminui os níveis de ansiedade da pessoa.

No geral, o tratamento passa pela administração de psicofármacos por parte da psiquiatria (benzodiazepinas e antidepressivos, conforme o diagnóstico da sintomatologia ser só primária ou também causa de depressão), mas como cientificamente provado, por si só não garante que não surjam de novas crises. A psicoterapia, designadamente a comportamentalista, associada à medicação em casos mais graves ou isolada, em casos menos graves, permitirá ir além do sintoma e chegar à identificação de crenças que predispõem a vivência de ataques de pânico, desenvolvendo a reestruturação cognitiva e a reatribuição interpretativa, psicoeducação, exposição situacional gradual, redução do controlo situacional. Complementarmente será útil recorrer-se a exercícios de relaxamento respiratório e muscular e de treino no foco atencional.

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare - Psicologia, Terapia da Fala & Medicina Tradicional

COMPORTAMENTOS DE FUGA E EVITAMENTO E REFORÇOS NEGATIVOS

Que efeitos tem a fuga na nossa autonomia? Que efeitos tem nas nossas habilidades sociais? A médio e a longo prazo, a fuga terá, à mesma, caracter de proteção? Ao fugirmos de alguma situação, sensação ou de alguém podemos tornarmo-nos insensíveis ao meio, ao que sentimos ou aos outros? Qual ou quais o(s) estimulo(s) negativo(s) a que tem fugido?

Tendencialmente fugimos do que nos é aversivo ou punitivo (reforço negativo) e se sentirmos algum êxito na fuga, maiores serão as hipóteses de manter a frequência do comportamento. A fuga dá-se no mesmo ambiente do estímulo aversivo / reforço negativo e caracteriza-se por uma interrupção da ocorrência. Já o evitamento consiste numa fase posterior à fuga, pois fugindo do que não agrada ou é insuportável leva a evitar a ocorrência no futuro ou a entrar em contacto com o estímulo negativo ou a sua envolvente.

Na Psicologia Comportamental designamos como reforço negativo o estímulo que aumenta e mantém a emissão de respostas / comportamentos de retirada perante o que se sente como aversivo (por oposição a reforço positivo, conotado com apresentação e aceitação). Sem avaliação de mau ou bom.

Ao fugirmos ou ao evitarmos as contingências do que para cada um de nós constitui reforço negativo, exercemos controle aversivo. No curto prazo, tal gera alívio ou garante a sobrevivência – e, muitas vezes, com a falsa sensação de controlo sobre o meio - mas a médio e a longo prazo pode dificultar-nos a percepção de reforços positivos, pode deixar de ter carácter protectivo, pode colocar problemas de autoconfiança e de autonomia perante desafios, comprometimento da maturidade emocional, comprometimento de habilidades sociais e do estabelecimento de relações que envolvam confiança e intimidade, além de que ao comportarmo-nos somente com base no que, para nós, é seguro pode tornar-nos rígidos e inflexíveis ou até, chegar a construir um universo de fantasia.

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare - Psicologia, Terapia da Fala & Medicina Tradicional

A Psicomindcare tem o prazer de anunciar que estão abertas as incrições para 2 novos grupos de psicoterapia:

Grupo de Ansiedade Generalizada e Grupo de Fobia Social

Duração: 23 Maio a 8 Agosto

Increva-se em: https://goo.gl/aeULtA ou pelos contactos habituais.
Saiba mais em http://www.psicomindcare.pt/terapia-de-grupo
#terapiadegrupo #ansiedade #fobiasocial

OS "MISTÉRIOS" DOS MOTIVOS DA MOTIVAÇÃO

Motivação. Eis-nos perante um constructo amplamente abordado nas várias vertentes da psicologia, da psicoterapia, da psicometria, nas teorias da aprendizagem e nos diversos significados!

Para complexificar um pouco mais, eis-nos perante um tema que pode ser usado de diferentes maneiras, de acordo com um rol de teorias sociais, organizacionais, do desenvolvimento e da aprendizagem, num único texto ou mesmo num parágrafo!

Não sendo intenção percorrer aqui os diversos autores e teorias que se vêm debruçando sobre a questão da motivação, não escapamos a dois dos subsistemas centrais sobre o conceito: para uns, motivação é encarada como uma força interna que regula todos os nossos planos e ações e que só cada um de nós consegue sentir, ou seja, algo que ocorre de dentro para fora por força da genética e/ou da vivência histórica individual, cabendo a cada um exercer controlo sobre o seu próprio comportamento; para outros, a motivação depende de contextos e situações externos a nós, isto é, ocorre de fora para dentro, sendo que as pessoas justificam o seu comportamento pelos factores de reforço (positivo, negativo, de punição ou de extinção) que não dependem do seu controlo pessoal.

Indo mais além, juntemos mais duas teorias: a do conteúdo e a do processo. Pelas teorias do conteúdo a incidência é feita na necessidade, no que motiva o indivíduo, o “por quê”. Do lado das teorias do processo, o foco é no “como” se desenrola o comportamento (motivado) para se atingirem os objectivos.

Efectivamente, o conceito de motivação é diversificado, às vezes contraditório e quase sempre pouco delimitado.

E se a “explicação” estiver em que não existe um gênio da motivação, só interno ou só externo, que transforma cada um de nós desde o mais zeloso dos trabalhadores até ao maior dos indolentes? E se a definição estiver na relação entre a condição biológica e a circunstância externa desembocando num comportamento? Na interação vista como um todo? E se a hierarquização de prioridades estabelecida por Maslow, só se restringe a uma sequência temporal, genérica, do desenvolvimento dos indivíduos, mas não se adequa, totalmente, à perspectiva dos processos internos de resposta, das necessidades, de processos de interação, ou de condicionamentos por modelagem de comportamentos, tão particulares e subjectivos?  

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare - Psicologia, Terapia da Fala & Medicina Tradicional

PERTURBAÇÃO OBSESSIVO - COMPULSIVA

A Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC) constitui uma perturbação de ansiedade específica, a par com a perturbação de pânico, com a fobia social ou com a ansiedade generalizada. É uma das perturbações que, no geral, mais desgasta as pessoas a nível emocional, intelectual e mesmo físico e como tal, limita a qualidade de vida.

As pessoas com experiência de Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC) apresentam maiores défices ao nível da regulação emocional, dado o recurso a mecanismos cognitivos e comportamentais ineficazes, desde a supressão de certos pensamentos ao evitamento de gatilhos, acreditando-se que assim se está a prevenir – quando, efectivamente, se está a circunscrever mais a própria vida.

Casos há em que a POC confina numa perturbação de personalidade (estrutural) – então designada como Perturbação de Personalidade Obsessivo – Compulsiva (PPOC). Quando se diagnostica sob a forma de traço, estímulos desencadeadores (gatilhos) como eventos de vida mais stressantes ou até traumáticos podem influenciar na manifestação e vulnerabilidade desta perturbação. A pessoa com POC receia que os seus pensamentos negativos, sensações ou acções se realizem. E os verbos – chave aqui são “controlar”, “evitar” e “prevenir”. O mal-estar advém das tentativas de afastar os pensamentos, os impulsos, as imagens mentais que afligem constantemente e a pessoa torna-se hiper vigilante sobre o seu corpo, sobre as suas rotinas e sobre tudo o que a rodeia e centra-se em pensamentos recorrentes e intrusivos, por exemplo, sobre doenças, sujidade, contaminação, dúvidas sobre segurança, evitamento de erros, o que considera prejudicial ou perigoso, ferimentos, temor a impulsos ou desejos, actos sexuais pessoalmente repulsivos, imoralidade ou religião, ou em acções de verificação, de organização, de simetria, de exactidão, de rotina ou de compensação. Mas sempre consciente que tais pensamentos incomodam e que até são “irracionais”, o que aumenta ainda mais o desconforto, a depreciação acerca de si mesmo e até a distorção de pensamento que o(a) distanciam ainda mais da realidade. Ou seja, se a POC tem uma base ansiogénica, é com ansiedade que a pessoa também procura resolver o problema.

Mas, como a designação indica, a Perturbação Obsessivo-Compulsiva tem duas componentes: a obsessão e a compulsão. Para considerarmos obsessão teremos então de estar perante pensamentos, impulsos ou imagens mentais com as seguintes características: serem negativos, intrusivos, muitas vezes reconhecidos como absurdos, que surgem repetidamente e que resistem a desaparecer da nossa consciência. Conforme as vivências culturais assim se verifica a prevalência de algumas obsessões. Já a compulsão é o que ritualiza com função de neutralização ou remoção de determinada obsessão e redução ou eliminação da ansiedade, ou do desconforto ou sofrimento associado, ou com intenção de garantir a protecção (daquele tipo de pensamentos, impulsos ou imagens). Ou seja, a compulsão é o comportamento manifesto e repetitivo e é através desta que o sujeito percepciona a função de controlo sobre essa ansiedade e pretende reduzir o sofrimento, mesmo acreditando que possa ser inadequada: contar repetidamente, perguntar frequentemente, evitar côres, números, traços, colocar objectos simetricamente, fazer lavagens constantes, fazer ensaios subvocais de palavras, frases ou orações, fazer verificações repetidas (muitas vezes com regra numérica) para evitar algum resultado temido, fazer colecções várias, ter necessidade de guardar tudo independentemente de vir a ser usado ou não, desenvolver compulsão alimentar… são alguns exemplos. E enquanto as obsessões podem nascer e desenvolver-se em privado, as compulsões, por força da acção comportamental manifestam-se exteriormente ao individuo, logo, constituem a componente visível da perturbação (mesmo aquelas que se possam desenvolver em espaço privado). A maioria dos indivíduos com POC tem tanto obsessões como compulsões.

Tratando-se de uma perturbação de base ansiogénica, a taxa de co morbilidade é (habitualmente) alta. Estatisticamente, mais de metade destas pessoas chegam também ao diagnóstico de depressão major (o que, por sua vez, piora os sintomas obsessivos), ou a fobia social, ou a fobias específicas, ou a perturbação de pânico, ou a perturbação dismórfico corporal, ou a Síndrome de Tourette.

Sem tratamento, a POC não desaparece e, geralmente tende a piorar, não somente pela perturbação em si, mas pelas suas co morbilidades. É comum recorrer-se à farmacologia para solucionar o problema, mas, uma vez mais, somente por esta via estamos a apostar no sintoma desvalorizando a causa e, mais cedo ou mais tarde, voltamos a sentir o incómodo e as limitações do problema. Somente com recurso a esta terapia, no geral e numa situação normal, as doses administradas para a POC são mais elevadas que as administradas na depressão e os efeitos desta medicação pode demorar até 3 meses sendo o desaparecimento dos sintomas gradual. Através de intervenção psicoterapêutica (sobretudo de abordagem cognitivo-comportamental) a prioridade estará em renomear, reatribuir, refocar, reavaliar esquemas / crenças mal adaptativos e em pensamentos metacognitivos que levam a processos automáticos e aí, o objectivo não é que o sujeito neutralize a(s) obsessão(ões) mas que aprenda a distorcer cognições de previsão de cenários mais temidos e a expor-se aos mesmos, a modificar estimativas de ameaça exagerada, a reformular crenças erróneas e de controle, adquirindo estratégias que se vão traduzir no alívio da ansiedade (aprende-se que não é preciso o exercício do ritual para se livrar da ansiedade) e permitindo assim diminuir a angústia da situação. Epidemiologicamente também está demonstrado que a terapia cognitivo-comportamental, designadamente a exposição e prevenção de resposta (ERP) é significativamente mais efectiva que o medicamento sozinho.

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica

PsicoMindCare – Psicologia, Terapia da Fala e Medicina Tradicional

PORQUE A PSICOLOGIA TAMBÉM É COMUNITÁRIA: A IMPORTÂNCIA DA CONSISTÊNCIA DAS MEDIDAS DE MUDANÇA EM CONTEXTOS COMUNITÁRIOS.

Escadinhas de São Cristóvão, Lisboa
(foto de Oh Lisboa)

O sentimento de pertença e de identificação a uma comunidade pressupõe, não só, obtenção de apoio social, como a disposição de recursos, com os quais se pode minimizar efeitos de carências e potenciar a saúde (mental e física), as oportunidades, os níveis de satisfação, o grau de envolvimento dos residentes, o sucesso escolar das crianças e o seu desenvolvimento (bem como a relação com problemas de comportamento).

Os contextos funcionam, assim, como mediadores e determinantes de processos individuais ou familiares. Uma comunidade competente pode ser definida como “uma comunidade que utiliza, desenvolve e obtém recursos” (Ornelas 2002). Então, a consistência das medidas de mudança numa comunidade passará pelo realce e incentivo das capacidades e qualidades dos indivíduos e da comunidade em geral (e não por salientar os défices).

Os indivíduos são sempre parte do sistema, logo, interessados e intervenientes nas actividades de melhoria da (sua) comunidade (enquanto seu “capital social” facilitador do benefício comum) e os programas e medidas de mudança deverão, desde logo, identificar esta interligação entre indivíduos e contextos.

Já os contextos de mudanças são necessários enquanto factor impulsionador do envolvimento e mobilização cívica. E ao serem sustentáveis serão, eles próprios promotores de mudança. Contudo, é necessário ter em conta que a consistência de medidas de mudança passa pelo controlo de mais do que uma variável de influência. Por exemplo, reduzirmo-nos ao controlo da pobreza num bairro pode subestimar o grau com que os pertencentes a uma dada etnia, também aí residentes, vivenciam os diferentes “nichos-ecológicos” no que se refere à educação, ao emprego, às oportunidades de casamento e oportunidades para estabelecerem interacções com a restante sociedade (Wilson, 1987). Ou seja, a minimização de determinadas características contextuais empobrece a compreensão do desenvolvimento e de outros processos psicológicos, conduz à perpetuação de estereótipos e à supressão de oportunidades para a intervenção.

A mudança pressupõe dois procedimentos básicos:

(1) Parcerias interdisciplinares, da própria comunidade ou com ligação à mesma, com objectivos comuns, que possam contribuir para o desenvolvimento de sistemas integrados ou articulados de serviços comunitários e para a promoção daquela comunidade;

(2) Aposta na resolução dos problemas através de processos de colaboração e sustentáveis no tempo, com vista ao desenvolvimento de modelos de sucesso.

Considerando que a sociedade é dinâmica a intervenção surge com função preventiva, como tentativa de ajustamento à mudança, através de respostas concertadas entre os diversos parceiros, da promoção de medidas de resiliência, do empowerment.

Especificamente, a intervenção comunitária poderá ser operacionalizada a partir das relações sociais entre indivíduos, grupos, associações ou instituições com impacto, de influências, orientações ou acções concretas (os potenciais recursos comunitários) com maior ou menor apoio externo (visto que se trata de um sistema aberto). O resultado imediato desta intervenção é a mudança social e em última instância a mudança individual. Aliás, a consistência das medidas de mudança comunitária será tanto mais eficaz quanto a participação for generalizada aos indivíduos, à sua colaboração na definição e implementação de objectivos comuns. E o que é que isto poderá ter a ver com o bem estar psicológico e físico de cada um? Consequentemente, na aquisição dessa força motivadora com importantes repercussões para a saúde e auto-eficácia que é o empowerment individual e colectivo.

Para o efeito, as áreas temáticas mais frequentemente abordadas pelos modelos de desenvolvimento comunitário, são os procedimentos democráticos, a cooperação voluntária, a ajuda - mútua, a liderança e educação dos agentes locais. Já as estratégias prioritariamente utilizadas para obtenção da mudança, são o envolvimento dos indivíduos na identificação e resolução dos seus próprios problemas – sendo os técnicos (“apenas”) elementos facilitadores na resolução de problemas, encorajando os indivíduos e as organizações, dando ênfase aos objectivos comuns e favorecendo o crescimento ao nível das competências democráticas.

Pelo contrário, quando são os técnicos a impor propostas de actuação esperando que os locais as aceitem, no geral a comunidade elabora as suas expectativas e, muitas vezes, a sua desconfiança, não constituindo esta metodologia uma resposta às fragilidades sociais existentes. Há que estruturar intervenções sociais, que facilitem a emergência de comunidades competentes e saudáveis, no pressuposto que o objectivo de todas as intervenções é a mudança social, baseada na competência e com vista ao bem-estar da comunidade, logo, individual.

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare - Psicologia, Terapia da Fala & Medicina Tradicional

TENHO CARTA DE CONDUÇÃO MAS FAÇO TRAVÃO A FUNDO À PRÁTICA DE CONDUZIR

O medo é um estado emocional que, nem sempre, está conotado com o que é negativo. Efectivamente, o medo é também uma reacção que prepara o nosso comportamento para evitar, enfrentar, ou fugir do que é sentido como ameaça. E neste sentido, o medo pode ser uma emoção positiva, pois funciona como meio útil de protecção e sobrevivência. 

No âmbito da circulação rodoviária, o medo pode fazer com que o indivíduo evite expor-se a situações perigosas, pelo ponto de vista positivo, como pode condicionar a exposição do sujeito a fluxos de trânsito mais intensos, aqui manifestando o lado mais negativo deste estado emocional, desproporcional, mal direccionado e associado a angústia e ansiedade. Sudorese, palpitações, taquicardia, tremores nas pernas são algumas (sensações desagradáveis) reações típicas do medo de conduzir.

No entanto, de acordo com a psicologia cognitivo-comportamental, a correspondência entre dificuldade em conduzir e medo não é tão simplista assim. Como se defende nesta corrente, um sentimento de medo não é causa directa de determinado efeito, mas é resultado de episódios passados na história de vida do indivíduo, que se espelham numa ou em várias relações actuais, de forma mais ou menos intensa, dependendo das contingências ambientais, sociais, culturais de cada um. Portanto, esta visão do carro como uma máquina que “pode matar” (até reforçada por reportagens de acidentes de trânsito noticiadas quase todos os dias) estará relacionado com reacções comportamentais anteriores de condicionamento, vivenciadas caso a caso, e com as consequências dos comportamentos evitantes de então.

O “travão a fundo” na prática da condução pode decorrer de perturbação de stress pós-traumático, de perturbação de pânico, de perturbação obsessivo-compulsiva, como ser uma fobia específica – amaxofobia. E como visão distorcida e irracional, característico das fobias, na amaxofobia o trânsito passa a ser percebido como uma ameaça e conduzir gera níveis mais elevados de stress e de ansiedade, o que acaba por interferir ou mesmo frustrar as rotinas diárias.

O tratamento farmacológico pode acalmar sintomas orgânicos, mas não chega a modificar comportamentos para lidar com esta ou outra situação tida como problemática para o sujeito.

O tratamento através de psicoterapia, mais ou menos abrangente, irá ter em atenção as várias condicionantes actuais e passadas do indivíduo, crenças, características de personalidade ou, inclusivamente, eventuais psicopatologias. Não terá de partir de um diagnóstico de fobia. Mas antes de se procurar causas externas que possam justificar o medo de conduzir é necessário centrar na subjetividade do sujeito em questão: qual a sua percepção de carro, o que tal objecto representa para o indivíduo, que fantasias lhe ocorrem no momento em que se imagina ao volante. Numa fase seguinte, trabalham-se as crenças disfuncionais com recurso a técnicas comportamentais de exposição gradual, adequadas às características limitadoras e simbólicas daquela pessoa. Os reforçadores positivos permitirão desenvolver habilidades até então escondidas por comportamentos evitativos, despertar para estímulos diferentes, selecioná-los e passar a comandar os movimentos com a tranquilidade e autoestima desejadas.

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare - Psicologia, Terapia da Fala & Medicina Tradicional

 

Fui mãe, devia estar feliz… então porque me sinto assim? (*)

Acabou de ser mãe!

Vê todos felizes à sua volta, o bebé está bem, mas você não consegue sentir-se satisfeita e pensa que o seu estado não é normal? A família não entende e o marido ou companheiro não sabe o que fazer?

O nascimento de um bebé pode ser um desafio para a mãe, tanto física como emocionalmente, mesmo nos melhores momentos. A perfeição é um mito, pelo que o que se pode chegar a verificar é: a melhor gravidez possível, o melhor nascimento possível, o melhor bebé possível, os melhores pais possíveis. E tanto melhor quanto o suporte familiar for efectivo, pois também pode ajudar a mãe recente na recuperação e a desfrutar do tempo com a família.

É comum e poder-se-á admitir mesmo como natural, que tanto a mãe como o pai experienciem alterações de humor com a chegada de um filho. Quem já não sentiu ou testemunhou, nesta fase, um momento de alegria enorme logo seguido de uma angústia capaz de colocar tudo em causa?

Estes sentimentos de angústia e de tristeza sentidos nos primeiros dias após o parto são geralmente designados como “Baby Blues”. Trata-se de uma fase passageira, comum, causada apenas pelas alterações hormonais bruscas que a mulher sofre no pós-parto. Em regra, nem necessita de tratamento e os sinais costumam desaparecer, naturalmente, ao fim de 15 a 20 dias depois do parto.

Todavia, algumas mães recentes podem vivenciar uma fase mais duradoura do que o Baby Blues, com sintomas que podem ter iniciado ainda na gravidez, ou decorrem há vários meses desde que o bebé nasceu ou então surgiram até um ano após o nascimento da criança. Aí, estaremos perante “Depressão Pós Parto”.

Neste caso sente-se ansiedade, choro fácil, tristeza e irritação, exaustão, maior dificuldade em concentrar-se e em motivar-se, culpa por não estar a conseguir usufruir do bebé, alterações no apetite e no sono, inadequada para tomar conta do filho recém-nascido, falta de interesse no bebé, chega a pensar em agredi-lo ou em agredir-se a si própria, ou pensa recorrentemente em morte ou suicídio…

Embora a Depressão Pós Parto afecte mais as mães, pode também incidir sobre os pais recentes, biológicos ou adoptantes. Não é causada pela gravidez ou pelo nascimento do bebé (embora possa surgir nestas fases), nem se baseia num único antecedente mas num conjunto de factores anteriores: históricos, biológicos, de personalidade, de experiências de vida, contextuais. Contudo, contam-se como factores de risco, já se ter passado por uma Depressão antes da gravidez ou por uma Depressão Pós Parto anterior, por existir história familiar de Depressão, por se verificar suporte familiar ou social frágil, por dificuldades financeiras, stress, antecedentes traumáticos, estrutura emocional fragilizada.

Alguns designam este estado como mais uma doença da civilização moderna e do estilo de vida. Por exemplo, numa cultura onde se exige à nova mãe um regresso, o mais imediato possível ao trabalho, a pressão também tende a aumentar. Ou quando a mulher percepciona a expectativa social relativamente à felicidade da mãe perante o seu bebé.

A Depressão Pós Parto requer tratamento. Não fique sozinha nesta luta! Com ajuda profissional poderá normalizar o seu estado emocional.

No âmbito do acompanhamento psicológico, a terapia cognitivo-comportamental é indicada em sintomatologia leve a moderada. Através desta psicoterapia, consegue-se alterar pensamentos disfuncionais e, consequentemente, trabalham-se sentimentos e comportamentos, além de com ela se poder praticar alguns exercícios de relaxamento.

Simultaneamente, o investimento nas relações sociais é importante para a partilha de experiências, para aprendizagem sobre a forma mais adequada, para si, de se ajustar à nova situação, para se perceber que não é caso único e que outros já passaram ou estão a passar pelo mesmo, ainda que cada progenitor ou cada criança sejam únicos e incomparáveis.

A introdução de medicação antidepressiva servirá para os estados mais severos da doença (tendo em atenção eventual influência na amamentação), a par da psicoterapia para efeito duradouro, pois uma terapia unicamente baseada em psicofarmacos não chega para travar o “alimento” da Depressão, que são as nossas cognições e crenças disfuncionais.

O apoio e cuidado por parte de quem está próximo são também relevantes.  Para isso, ajuda que as expectativas dos cuidadores sobre a evolução do estado depressivo da mãe / parturiente sejam realistas, que demonstrem disponibilidade para ajudar a cuidar do bebé (inclusivamente, promovendo os períodos necessários de descanso para a mãe), que a sua ajuda permita a concretização de objectivos diários por parte da mãe / dos pais do recém-nascido.

Com suporte e com tratamento a Depressão Pós Parto da mãe não acompanhará o crescimento da nova criança.

 

(*) Artigo publicado na Up to Kids em 17.01.2017 [plataforma de comunicação dedicada à produção de conteúdos para crianças, destinada a pais e educadores.]

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare - Associação de Psicologia

ENVELHECIMENTO - PROCESSO NORMAL OU FORÇOSAMENTE PATOLÓGICO?

fonte: tripalio.blogspot.pt

Para o sujeito nem sempre existe algo palpável sinalizando a sua velhice, pois “velho” é sempre o Outro.

O sujeito vê o seu envelhecimento, a sua velhice, pelo olhar do Outro – vê-se velho pela imagem que o Outro lhe devolve.

O envelhecimento ativo refere-se à possibilidade de envelhecer com saúde e autonomia, continuando a participar plenamente na sociedade enquanto cidadão ativo. Independentemente da idade, todos podem continuar a desempenhar um papel na sociedade e a usufruir de uma boa qualidade de vida. O desafio consiste em aproveitar da melhor forma o enorme potencial que cada um conserva até ao fim da vida, designadamente ao nível de:

- Emprego: à medida que a esperança de vida aumenta em toda a Europa, a idade da reforma aumenta também, mas muitos receiam não conseguir manter o emprego ou não encontrar outro de forma a poderem usufruir de uma reforma decente. É necessário investir em melhores perspetivas de emprego aos trabalhadores mais idosos.

- Participação na sociedade: sair do mercado de trabalho não significa ficar inativo. Há que valorizar o contributo dos mais velhos para a sociedade (ex: cuidar dos netos e até dos próprios pais ou do cônjuge; fazerem trabalho de voluntariado; etc.)

- Autonomia: as consequências da deterioração da saúde com a idade podem ser atenuadas de várias maneiras: pequenas mudanças à volta dos próprios e dos cuidadores podem melhorar significativamente a vida das pessoas com deficiência ou problemas de saúde; desenvolver a capacidade dos idosos para manter a autonomia o máximo de tempo possível.

Então, o sofrimento psicológico (e na perspectiva psicológica da psicopatologia) é o que se centra no próprio indivíduo e não na perturbação, nas suas vivências e comportamentos, na relação com os outros, ou com o mundo.

A patologia identifica-se com experiência de sofrimento (intenso, permanente, desproporcionado aos acontecimentos); comportamento desadaptado; dificuldade nas relações interpessoais; crise familiar; alteração da adaptação profissional; dificuldades de adaptação profissional; limitação do desenvolvimento existencial. Assim, a psicopatologia integra o comportamento patológico; a experiência perturbada; a personalidade; o estilo de adaptação; os padrões de comunicação e relação; o funcionamento familiar; processos de grupo; factores biológicos; entre outros.

É comum, entre os mais velhos, verificar-se uma psicopatologia da consciência (capacidade para reagir a estímulos internos e externos; sensório, que implica um nível de alerta e de atenção; consciência do EU corporal e físico e consciência do mundo) e da orientação, com hipervigilidade (estado de vigilia excessiva por crise de ansiedade p.ex.); hipovigilidade (com lentificação psíquica e motora e eventual desorientação; dificuldade em captar estímulos; diminuição da capacidade de prestar atenção; dificuldades de compreensão e de expressão; sonolência excessiva) – que é comum em situações de AVC; perturbação global do conhecimento (perturbação do nível de vigília e experiências alucinatórias); confusão mental (hipovigilidade; incoerência do pensamento e do discurso; dificuldades de compreensão e de memória; desorientação no tempo e no espaço; comportamento incoerente; alteração psicomotora com agitação ou inibição; vivência de estranheza, perplexidade ou ansiedade); estado confuso onírico (estado de confusão mental com alucinações e experiência delirante acompanhada de tremores, sudação, taquicardia).

A "normalidade" é reconhecida na nossa cultura ocidental como atributos psicológicos (equilíbrio psicológico interno = percepção coerente de si próprio, sentimento de bem-estar, capacidade de identificar-se com os outros, capacidade de auto-realização, resistência ao stress e à frustração, autonomia afectiva e cognitiva, competência para realizações concretas profissionais ou sociais, percepção adequada da realidade com capacidade para interagir de forma adequada com os outros e com o mundo); e desenvolvimento pessoal (promover o próprio enriquecimento existencial através de projectos significativos, que resultam de escolhas livres e autênticas i.e. concordantes consigo mesmo).

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare - Associação de Psicologia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mude os seu hábitos em 4 passos:
http://www.psicomindcare.pt/perfil-bionutricional

Personalidades Dependentes

A Personalidade Dependente é um padrão que, por norma, começa a manifestar-se no início da idade adulta. No geral estas pessoas receiam a separação e o abandono, evitam conflitos com outros, colocam os seus desejos atrás dos desejos dos outros, demonstram um comportamento mais imaturo.

A pessoa emocionalmente dependente vivencia uma luta interior grande para não experimentar a autonomia, a ponto de tal conflito se assemelhar a um estado de prisão uma vez que a susceptibilidade exerce-se em todo o tipo de relacionamentos: familiar, afectivo, professional, de amizade, entre pares, comunitário, etc.

Estas pessoas têm dificuldade em tomar decisões sem antes se aconselharem, mesmo para as escolhas diárias e mais rotineiras, evidenciando uma atitude de hesitação e medo de errar. Para além de tal revelar falta de auto-confiança, ou menor auto-estima, são pessoas que precisam de recorrer a outros para não assumir protagonismo e responsabilidade em áreas da própria vida e com isso desistem de controlar a maior parte das áreas da sua vida porque, na sua percepção, os desafios inerentes podem tomar dimensões enormes e daí parecer difícil ou até impossível lidar com o problema sozinho.

Iniciar projectos individuais é quase sempre uma luta, pois está frequentemente presente o medo de demonstrar aos outros um mérito inexistente e o receio do julgamento – alias, "só os outros têm boas ideias e estão correctos". Então, a forma mais fácil de não validar essa fraqueza é evitar tomar iniciativa e aqui a motivação desenvolve-se não com vista à realização da tarefa, mas tendo por objectivo o seu evitamento.

Quando conseguem tomar alguma iniciativa fixam-se em mais uma “prisão”, desta vez a necessidade de validação e de aprovação por parte dos outros. Mas se conseguirem atingir este objectivo, em regra a sensação de sucesso é pouco duradoura pois logo a insegurança ganha terreno comprometendo a continuidade do controlo da situação.

Sentem-se ansiosos quando estão sozinhos ou quando pensam que vão ficar sozinhos porque não se acham suficientemente competentes para contornar a vulnerabilidade e falta de proteção que percepcionam e isso torna-se assustador para estas pessoas. A tendência é pensarem sempre o pior e serem fieis seguidores da lei de Murphy: tudo o que poderá correr mal, vai correr mal.

Afectivamente são pessoas mais focadas no relacionamento do que na (outra) pessoa já que são a conexão, o envolvimento, a convivência que vinculam a sua segurança.

Independentemente das causas ansiogénicas e depressivas que podem estar na base de uma personalidade dependente e não deixando de as considerar, em psicoterapia mais directamente direcionada à alteração de comportamentos, a pessoa pode desenvolver algumas estratégias que lhe permitam ir vencendo a dependência e quiçá reconhecer que muitas vezes pode estar a ser objecto de manipulações por parte de outros. O objectivo aqui é fortalecer a independência e a segurança passando o foco para o papel individual, reconhecendo o que é vontade própria e o que é obrigação, desenvolvendo a assertividade, assegurando a sua intimidade, reconhecendo relações fragilizadas, reconhecendo que as expectativas dos outros só aos outros dizem respeito, 

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare - Associação de Psicologia

DETERMINANTES SOCIAIS DA DOENÇA MENTAL

A saúde mental não é só a ausência de doença mental

[OMS - Organização Mundial de Saúde]

 

Uma revisão epidemiológica da literatura entre 115 estudos levados a cabo em países com baixo ou médio rendimento revelou que em 70% existia associação positiva entre pobreza e perturbações mentais (Lund C et al. 2010).

Desde a nossa primeira infância que o ambiente social, económico e físico influencia a saúde mental com repercussão na saúde física. A exposição frequente a condições vulneráveis, económica e socialmente desfavoráveis poderá constituir uma causa de perturbação psíquica, considerando-se a educação, a assistência social, o emprego fontes de empowerment para que as pessoas façam as suas escolhas e se sintam em igualdade umas com as outras.

Conforme evidencias demonstradas pela Comissão dos Determinantes Sociais da Saúde, da Organização Mundial de Saúde (OMS) um posicionamento num escalão socioeconómico inferior está sistematicamente associado a maiores taxas de depressão e de ansiedade. Porque a saúde mental é “um estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza o seu potencial, experiencia stress normal, trabalha produtivamente e é capaz de contribuir para o bem-estar da sua comunidade” (OMS), uma restrição severa das capacidades individuais - como seja, má nutrição, dificuldade em conseguir completar determinado grau de ensino, vivenciar violência doméstica, usufruir de baixa remuneração, ter dificuldade em alimentar e vestir os filhos, ser idoso e viver socialmente isolado - tenderá a reduzir o estado de humor, o sentimento de esperança, o autoconceito e a autoestima.

Um princípio para contornar os determinantes sociais na saúde mental passará por reconhecer que a saúde mental não é algo adquirido, mas é um estado e como tal, influenciado por fatores que se vão acumulando, muitas vezes ao longo da vida. As estratégias de prevenção ou de intervenção serão tão mais apropriadas quanto aplicadas em função da fase de vida.

Simultaneamente, o estabelecimento de parcerias com organizações económicas e sociais para melhorar as condições de vida diárias e a alocação de recursos financeiros e médicos para priorizar a saúde mental podem contribuir para fazer a diferença no empowerment de indivíduos e de comunidades.

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare - Associação de Psicologia

BURNOUT – o “queimar por completo”

O Burnout surge quando as exigências de trabalho tendem a que a pessoa supere a sua capacidade de lidar com o stress. Todavia, enquanto o stress interfere sobretudo com a vida pessoal do indivíduo e não necessariamente na sua relação com o trabalho, o Burnout conduz a comportamentos negativos para com outros e para com o trabalho.

Profissões associadas aos cuidados a terceiros como a de Professor, Enfermeiro, Médico, Assistente Social, Polícia, entre outras, tendem a reportar maiores taxas de Burnout. Todavia, também é comum verificar-se em trabalhadores de call center, controladores aéreos, pilotos de aviação civil, gestores de topo de empresas, atletas profissionalizados. Ou seja, em funções onde é esperado que as pessoas atinjam objectivos exigentes, vivenciem sobrecarga de trabalho ou conflitos de papel, sejam mais controlados, possuam escassa participação na tomada de decisão, sintam mais dificuldades comunicacionais, se sintam menos recompensados, lidem directamente com o público e com características mais rudes de outras pessoas e/ou acumulem desencantos.

Para além dos factores organizacionais e da profissão, outros individuais poderão estar directamente relacionados com o Burnout, como é o caso dos ligados à demografia e à personalidade. Por exemplo, demograficamente os estudos vêm associando maior prevalência de esgotamento emocional em mulheres do que em homens, ao passo que estes apresentam maiores valores na despersonalização (distanciamento emocional relativamente a clientes e a colegas de trabalho) e na falta de realização no trabalho (sentimentos de incompetência, de baixa produtividade). No que se refere à personalidade tem-se verificado que quanto menor o grau de resiliência ou maior o nível de perfeccionismo e de rigidez ou sempre que o locus de controlo externo prevalece sobre o interno, maiores os níveis de Burnout.

Numa situação de Burnout a pessoa experiencia exaustão emocional, fadiga, despersonalização, falta de sentido de realização, alteração de hábitos, dificuldades de concentração, perda de autocontrolo, perda de motivação, sentimento de incompetência profissional e insegurança, oscilações na auto estima. Frequentemente, com a redução do entusiasmo e das expectativas em relação ao trabalho vão-se desenvolvendo sentimentos de culpa, mal-estar psicológico e manifestações físicas, com correlação significativa com depressão, ansiedade e até situações fóbicas.

A nível neurobiológico, quanto maior o nível de stress (ou quanto mais ampliada a amígdala – a estrutura cerebral relacionada com emoções negativas) mais enfraquecida fica a ligação entre regiões cerebrais. Igualmente, verificam-se fragilidades nas execuções funcionais relacionadas com o córtex pré-frontal médio, como seja o caso do desenvolvimento de pensamentos complexos ou de ações. Estudos de neuro imagem demonstram também que o funcionamento cognitivo de uma pessoa com Burnout tem semelhança proeminente ao do processo de envelhecimento.

No âmbito do sistema endócrino, o cortisol (a “hormona do stress”) exerce efeitos no aparelho cardiovascular, na actividade imunitária e na função da memória.

Em suma, considerando-se o Burnout como uma síndroma psicossocial, acarreta disfunções sociais e organizacionais, com consequências sociais e económicas. Em termos genéricos aconselha-se mudança no estilo de vida, moderando-se a actividade. Mais concretamente, ainda que a etimologia da palavra remeta para “queimar” (burn) e “fora” (out), cabe ao próprio identificar, modificar e adaptar os factores stressores no trabalho às suas necessidades pessoais e profissionais, priorizar tarefas, não mencionar assuntos de trabalho em momentos de descontração. Para esta concretização ajuda o tratamento psicoterapêutico, com a introdução de técnicas de evidente enfoque no individual, no reconhecimento do próprio potencial, em lidar em conformidade com os pontos fortes e fracos, em não se ver como vítima das circunstâncias quando se sente inadequado ou incapaz de alcançar um sucesso, em visualizar metas atingíveis, em retomar a (auto)aceitação e a autoconfiança.

 

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare – Associação de Psicologia

ANSIEDADE GENERALIZADA

Todos nós temos dúvidas, incertezas e nos preocupamos com assuntos pessoais, familiares, profissionais. É normal e até desejável, pois serve-nos de protecção perante algo que possa correr menos bem e nos cause dano. Ou seja, não deixam de ser emoções normais e adaptativas que conseguimos controlar, estão delimitadas no tempo e no seu conteúdo, não nos desorganizam e não nos impedem de prosseguir com as nossas actividades diárias.

Contudo, quando a preocupação e os receios se tornam excessivos, intrusivos, persistentes a ponto de se centrarem em situações menos prováveis de acontecer e nos sentimos constantemente tensos e física e mentalmente esgotados para lidar com as rotinas – com fadiga muscular, dificuldade em adormecer, queixas gastrointestinais, cardiovasculares, hormonais - então poderemos estar a vivenciar um estado de ansiedade que não raramente se generaliza a todos os pilares da nossa vida.

A ansiedade generalizada, como a designação indica é difusa e de tão desproporcionada em relação ao estímulo acaba por causar sofrimento e se fazer sentir como prisão. Verifica-se uma inquietação permanente perante várias situações da vida, sejam elas mais ou menos significantes, ainda que em geral são situações e incertezas comuns a todos (saúde, finanças, emprego, família…), mas que aqui o indivíduo leva a inquietação a um patamar muito superior. A pessoa não consegue relaxar, divertir-se, monitorizar os seus pensamentos para outros mais positivos e compromete o seu desempenho.

Será pelo facto de se preocupar em excesso que terá mais cuidado, será mais responsável ou não negligente? Tudo o que acontece na sua vida e na dos seus dependerá só de si? A inquietação vai prepará-lo melhor para acontecimentos desagradáveis ou imprevisíveis? Ou vai impedir que aconteçam?

Bem, em alguns de nós o estado constante de medo e apreensão parece funcionar como estímulo à procura de solução. Pelo menos os níveis de adrenalina aumentam… Parece! Porque por outro lado, a preocupação excessiva pode levar a um estado de depressão e como tal, a concentração necessária para desenvolvermos uma solução para o problema fica comprometida, além de se persistir numa distorção de pensamentos mais pessimista e fatalista. No extremo, a pessoa pode chegar a experienciar perturbação paranóide.

As perturbações ansiosas são os quadros psicopatológicos mais comuns em adultos e em crianças. No geral, as perturbações ansiogénicas constituem quadros clínicos primários, ou seja, não derivam de outras psicopatologias (ex: depressões, psicoses, perturbações do desenvolvimento, etc.). Todavia os sintomas ansiosos (e não tanto as perturbações) coexistem frequentemente noutras perturbações do foro psiquiátrico, mas uma vez mais, a nível primário (de início de surto esquizofrénico, de depressão major).

A terapia de um quadro de ansiedade generalizada pode passar por diversas abordagens psicoterapêuticas. No entanto, a terapia cognitivo-comportamental tem manifestado eficácia duradoura, através de mudança na distorção cognitiva sobre o ambiente e a(s) causa(s) com consequente alteração e reforço positivo no comportamento.

A terapia psicofarmacológica justifica-se em casos mais graves, em que a ansiedade tem um efeito paralisante na vida da pessoa. Contudo, os estudos vêm comprovando que este tratamento realizado isoladamente da psicoterapia não tem efeito duradouro. Os fármacos servirão para regular os sistemas serotonérgico e adrenérgico e em primeira linha os Psiquiatras prescrevem inibidores selectivos da recaptação da serotonina (ISRS) e inibidores selectivos da recaptação da serotonina e de noradrenalina (IRSN) - as benzodiazepinas estão mais direccionadas para situações de ansiedade situacional e crises de pânico, ainda que sejam prescritas em demasia, mesmo para quadros de ansiedade generalizada e apesar de estudos revelarem incerteza de eficácia a longo prazo e risco de dependência.

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare – Associação de Psicologia

SÍNDROMA DO NINHO VAZIO

O tempo parece passar por nós mais rápido do que o desejado. Parece que é insuficiente para usufruímos de todos os momentos em que os nossos filhos são pequenos e indefesos e num ápice eles já leem, já privilegiam mais o tempo com o grupo de amigos do que com os pais, já entraram para a universidade, para o mundo do trabalho, aventuram-se num país estrangeiro, namoram, partem para uma relação conjugal… Enfim, quando damos conta eles cresceram e tornaram-se autónomos.

Diz-se que “é a vida”, que os filhos “não são nossos, são do mundo”… é, na perspectiva integrativa, a função biológica de mãos dadas com a função social.

Contudo, apesar de se concordar que faz parte da vida, a aceitação nem sempre se verifica e aquando da independência dos filhos, muitos pais sentem-se menos importantes na vida dos descendentes, abandonados e tristes. Não raramente, o silêncio e a solidão passam a predominar na casa paterna.

A Síndroma do Ninho Vazio surge dessa auto-centralização, desse sentimento de dependência e de perda do papel da função de pais, dessa tristeza que os pais começam por experienciar e que pode transformar-se em depressão.

Estatisticamente, estes sintomas afectam mais a mãe do que o pai. Geralmente coincidindo com a fase de menopausa e com o turbilhão de emoções associado, a mulher sente a sua função reprodutora esvanecer, sente-se envelhecida, com o seu papel tradicional enquanto cuidadora da família a perder importância, com auto imagem e auto estima reduzidas. O investimento numa vida mais dedicada aos outros do que a si própria gera também uma conjuntura propícia à patologia e, consequentemente, afecta as relações familiares.

No entanto, tal não significa que os homens também não vivenciem os mesmos sentimentos e demonstrem vulnerabilidade durante este período de adaptação. Podem é reagir de forma diferente da mulher, acomodando-se à nova situação mais facilmente (o que, por outro lado, também pode agudizar os conflitos conjugais).

Características da personalidade medeiam também o modo como pai e mãe lidam com a separação dos filhos.

No geral, verifica-se que indivíduos mais auto vitimizados, histriónicos, sugestionáveis, dramáticos são os que sofrem mais com a situação. Por outro lado, factores externos como o motivo da saída do filho podem igualmente minimizar ou maximizar a intensidade do sofrimento e a adaptação. Se os pais sentirem que a separação traz mais-valias a mesma é melhor elaborada e portanto, torna-se menos dolorosa e mais tranquila.

Esta passagem por um processo mais ansiogénico e de dualidade de sentimentos faz parte do ciclo de vida. A transição para um estado de (re)estruturação familiar consegue-se através da aceitação dos períodos de crescimento, de maturidade e de declínio, inerentes a qualquer ciclo vital e que em si incluem perdas e ganhos biológicos e sociais. Enfrentando um estado que sabemos ser natural, porque no passado também fomos actores da mesma mudança e as gerações anteriores a nós igualmente, que tal assumirmos a nossa (boa) parte, enquanto pais, na educação para a independência dos filhos e também gozarmos esses louros?

A Síndroma do Ninho Vazio é pontual, logo, mais facilmente pode ser superada. Se o nosso papel enquanto pais muda e se torna mais distante (mas não desaparece), então, há que proceder a ajustamentos da nossa parte, como por exemplo:

– Partilhando o que sente, para mais facilmente identificar soluções;

– Permitindo-se sentir as próprias emoções (tristeza, alegria, receio, optimismo …);

– Ouvindo e apoiando o/a parceiro/a;

– Promovendo momentos e acções que contribuem para o nosso bem-estar;

– Realizando projectos que vinham sendo adiados, sozinho, com o/a companheiro/a e encontrando novos prazeres;

– Listando actividades pessoais prazerosas que há muito gostaria de fazer e foi adiando;

– Retomando o papel de mulher para além do papel de mãe;

– Cultivando as relações sociais;

– Usufruindo do contacto com o ar livre e a natureza;

– Apostando na melhoria contínua da relação com o filho, na qualidade da comunicação, nos afectos, no apoio, sem ser invasivo.

Excepto quando os objectivos são difíceis de definir, quando o filho se “esquece” dos pais e a tristeza destes se prolonga podendo adquirir contornos de depressão, a dor sentida termina quando a ordem familiar é refeita e os aspectos sociais da vida são restabelecidos. A Síndroma do Ninho Vazio resume-se a um problema temporário psíquico com cunho emocional-social, sem necessidade de medicação para o que não chega a ser fisiológico.

 

 (*) Artigo publicado na Up to Kids em 19.12.2015 [plataforma de comunicação dedicada à produção de conteúdos para crianças, destinada a pais e educadores.]

Alice Patrício, Psicóloga Clínica, para Up to Kids®

AS SUAS EMOÇÕES TAMBÉM ESPELHAM O ESTADO DA SUA RELAÇÃO AFECTIVA

Willem Haenraets

Quanto mais sentir que o relacionamento com o(a) seu(sua) parceiro(a) é satisfatório, maior se tornará a sua capacidade de resiliência e de resposta a situações stressantes do dia a dia.

Este estado ideal tem muito de adquirido, isto é, passa por um processo de aprendizagem acerca da gestão de emoções, que têm sobretudo um papel adaptativo com vista à nossa sobrevivência.

Resumidamente, as emoções informam sobre:

- o nosso estado interno;

- como os outros sentem as nossas emoções e, consequentemente, a interação entre nós e eles e vice versa;

- a nossa interpretação dos acontecimentos;

- posicionam-nos para a acção.

Assim, as nossas emoções determinam as respostas (não só emocionais como também cognitivas) que damos. No campo afectivo, estudos vêm demonstrando que relações afectivas de boa qualidade vividas na infância potenciam maior resiliência a experiências menos agradáveis no futuro. Tal é verdadeiro para com qualquer relação interpessoal.

Consideram-se relações saudáveis de namoro ou entre cônjuges, aquelas em que ambos os parceiros:

- partilham os mesmos valores e objectivos de vida e estão decididos a fazer esse percurso juntos;

- não guardam segredos, promovem a confiança mútua, discutem qualquer assunto abertamente, independentemente da opinião de cada um;

- independentemente da relação que partilham, cada elemento do casal mantém a sua identidade pessoal;

- apoiam-se mutuamente, crescem e evoluem juntos, tomando o/a parceiro/a como elemento inspirador. Os sonhos / projectos de vida do parceiro são assumidos mutuamente e complementarmente;

- Confiam no outro as suas necessidades pessoais e as suas dúvidas;

- Respeitam as suas diferenças, disponibilizam-se para as conhecer (e não só o que querem escutar ou entender) e transformam-nas em aprendizagens;

- Riem e divertem-se juntos;

- Demonstram afecto;

- Surpreendem-se positivamente;

- Convivem com outros.

Pelo contrário, o poder, o controlo, a ditadura dos ciúmes, o domínio do comportamento do outro, a pressão, a intimidação de forma verbal, gestual ou com acções físicas conduzem ao desrespeito e são características de relações não saudáveis e toxicas.

Não se nasce a saber-se amar. Aprende-se a amar. Para isso, comece por aprender a reconhecer os seus próprios erros, comunique, não se perca a fantasiar, reavalie as suas expectativas com base no real.

 

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica|PsicoMindCare – Associação de Psicologia

 

CRENÇAS QUE PERTURBAM – MAS NÃO ETERNAMENTE!

As nossas crenças são muitas vezes irracionais, o que faz com que nos perturbem e condicionem a nossa forma de ser, de estar e de fazer. Ou seja, não são funcionais e são emocionalmente destrutivas.

As crenças irracionais verbalizam-se, maioritariamente, através de um discurso mais rígido, com recurso a terminologia absolutista como “eu devo fazer…”, “tu deves passar a ser…”, “o mundo tem que…”. Tal discurso está geralmente associado a exigências (para o próprio) de justiça, de moralidade, de como se “devem” regular as relações humanas.

São exemplo de crenças irracionais:

- Necessidade extrema de ser aceite e amado por toda a gente, sem excepção;

- A pessoa só é válida se for competente, auto-suficiente e capaz de realizar tudo aquilo a que se propõe;

- O mal-estar da pessoa e os seus infortúnios são sempre causados por razões externas e como tal, fora do controlo do próprio;

- Devo perturbar-me sempre com qualquer tipo de ameaça;

- É mais fácil evitar as responsabilidades e as dificuldades do que enfrentá-las;

- O meu passado vai afectar-me para sempre.

Frequentemente, se este tipo de crenças não se concretiza, surgem comportamentos de menor resistência à frustração, sejam eles de raiva, de zanga, de culpa, de condutas de risco, ou até de condenação da conduta dos outros (prioritariamente) ou do próprio.

Poderemos considerar que as crenças irracionais assemelham-se a distorções cognitivas – conforme os cognitivo-comportamentalistas como Beck e Ellis as designaram.

Então, as distorções cognitivas (indo ao encontro das crenças irracionais) não são mais do que pensamentos que na essência nos servem como estratégias para proteger e ajustar às situações adversas, mas que efectivamente não providenciam a proteção desejada, uma vez que são falaciosos, logo, baseados na nossa percepção, na forma como interpretamos o mundo.

Assim, será que a chave da mudança estará na interpretação dos acontecimentos? Se não são os eventos externos a dependerem directamente de nós, individualmente, mas sim as nossas crenças e, consequentemente, os comportamentos, então que tal “investirmos” na forma como agimos perante o acontecimento, ou seja, nas nossas crenças, emoções e comportamentos?

Na prática gerimos melhor os nossos níveis de stress, de ansiedade de depressividade não assumindo a nossa crença inicial, questionando directamente o outro ou assumindo aquilo que significa algo para nós – se é importante, dá-se importância, se não é importante não se dá importância. Mas… e como avaliamos, se é importante? Por exemplo, se tem efeito directo em qualquer área da nossa vida e no tempo presente ou futuro e/ou se tem efeito directo na vida dos outros, privilegiando-se a harmonia nas relações.

Ainda não acredita que a reestruturação cognitiva pode não ser algo complicado? Experimente prestar atenção aos seus pensamentos, reformula-los e assumir que, naturalmente, desenvolve percepções erradas e distorcidas. Por exemplo, experimente:

- Considerar que ninguém é competente em tudo, nem consegue a aprovação e reconhecimento de todos;

- Não se sentir como vítima das circunstâncias, lidando em conformidade com os seus pontos fracos e fortes, com o seu potencial e definindo metas atingíveis para si;

- Notar que pensamentos negativos caracterizam-nos, imediatamente, como perdedores não só para connosco próprios como perante os outros. A sua auto confiança, auto conceito e auto estima são diminuídas. Pelo contrário, abordagens positivas facilitam o nosso crescimento e desempenho;

- Definir um objectivo atingível para si (não um objectivo copiado mas um que se ajuste à sua realidade) e visualize-se a alcançar essa meta. Isso permite mante-lo orientado e focado, promove a sua auto confiança e controla os seus níveis de stress;

- Independentemente da quantidade e da intensidade do que nos propomos fazer, experimente também apreciar-se a si mesmo sempre que atingir o objectivo traçado e celebre.

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica|PsicoMindCare – Associação de Psicologia

 

AQUILO A QUE SE PASSOU A CONHECER COMO "SINDROMA DE ESTOCOLMO"

MUSE - Stockholm Syndrome

São os seus defeitos que fazem de você uma pessoa única.

(do filme da Disney, “A Bela e o Monstro”)

 

Oficialmente, tanto quanto Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (American Psychiatric Association) impõe, o Sindroma de Estocolmo (ainda) não é considerado perturbação mental. Mas, por via de algumas notícias da comunicação social, é frequente ouvirmos falar do termo, pelo que em clínica não o deixamos de considerar, de alguma forma.

Stockholmssyndromet, a designação original atribuída pelo psicólogo e criminólogo Nils Bejerot a propósito do assalto que durou 6 dias em Norrmalmstorg, em 1973, ou Síndroma de Estocolmo, como é mais conhecido entre nós, refere-se a um estado psicológico vivenciado por vítimas que, submetidos(as) a situação de rapto, abuso pessoal, violência doméstica e familiar, cenários de guerra, experiência como sobrevivente em campo de concentração, vítimas de práticas de culto abusivas, passam a identificar-se com o perfil emocional do sequestrador / agressor, defendem-no ou chegam mesmo a desenvolver ou a continuar a manifestar sentimentos de afectividade para com o raptor, sem que, todavia, tenham consciência disso.

As estatísticas referem que só uma minoria dos reféns ou em situações passivas de violência é afectada pelo Síndroma de Estocolmo. Entre estas, a literatura destaca as pessoas que muitas vezes se sentem impotentes em situações de stress, no geral, ou pelo contrário, que accionam estratégias para se proteger e sobreviver à situação, serão mais suscetíveis a desenvolver Síndrome de Estocolmo. Que estratégias? Por exemplo, para se afastarem emocionalmente da realidade que estão a viver ou por receio de retaliação experienciam identificação afectiva e emocional com o agressor e alheiam-se da sua própria situação. Contudo, muitos mantém as funções cerebrais de alerta de perigo accionadas, o que faz com que, especialmente em situações de cativeiro mais prolongadas, estas vítimas escapem.

O Sindroma de Estocolmo manifesta-se por uma relação de poder em que o agressor dita o que a vítima pode ou não pode fazer, ameaça de danos físicos à vítima, mecanismos de defesa por parte da vítima para autopreservação da sua integridade como: obedecer, relevar os gestos de gentileza (assim considerados pela vítima, perante a situação de ameaça e traumatizante que vivencia) tornando-os em provas de amizade e em compromisso mútuo para saírem o melhor possível da situação e assim permanecerem após a situação de cativeiro.

De facto, esta sintomatologia é essencialmente consequência do elevado stress físico e emocional vivenciado pelas vítimas, que as leva a adoptar mecanismos ilusórios naturalmente não assim compreendidos pelas outras pessoas que estão fora da situação.

O diagnóstico e tratamento do Síndroma de Estocolmo assemelha-se ao de Perturbação de Stress Pós Traumático, perante sintomas posteriores de insónias, pesadelos, dificuldade de concentração, irritabilidade, confusão, menor capacidade de desfrutar de experiências prazerosas, desconfiança.

 

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare - Associação de Psicologia

 

EFEITOS PSICOLÓGICOS DECORRENTES DA ALTERAÇÃO DA IMAGEM CORPORAL EM MULHERES COM CANCRO DA MAMA

pintura de Simon Birch

No âmbito da psicologia, Ogden (2004) considera que as mulheres com cancro da mama podem atravessar as fases de choque (incredibilidade, negação), de angústia aguda (sentimentos de perda, luto, raiva, ansiedade, desamparo, desespero), de procura de significado, de procura de mestria e de melhoria da auto-estima.

Apesar da eficácia cada vez maior dos métodos de tratamento do cancro, materializada na sobrevivência crescente, os doentes têm que fazer face a uma doença potencialmente debilitante, à dor, à alteração da auto-imagem, à perda de funções fisiológicas e à morte. No caso específico do cancro de mama trata-se de uma patologia que, além do estigma associado à doença em si, pode provocar sofrimento físico e psicológico, por exemplo, devido à cirurgia de amputação de um órgão que simboliza a feminilidade, a maternidade e a sexualidade (Gimenes & Favero, 2000).

 Neste processo de tratamento, a mulher passa por vários lutos causados pela alteração da imagem corporal, pelas consequentes limitações da cirurgia e pelos tratamentos de quimioterapia, radioterapia e hormonais a que muitas vezes estas mulheres são submetidas (Maluf, Mori & Barros, 2005). É comum a mulher vivenciar tristeza e baixa auto-estima devido à mutilação deste orgão visível e /ou aos efeitos secundários dos tratamentos.

A imagem corporal inclui imagens e representações mentais, mas não se reduz a tal. Do mesmo modo, não é também um espelho fiel do nosso corpo ou resultado da familiarização que desenvolvemos com o mesmo. Cada pessoa elabora, a seu modo, a imagem do seu próprio corpo, acentuando ou modificando as diferentes partes em função dos mecanismos inherentes à sua personalidade e das vivências passadas e presentes. A imagem corporal não é apenas consciente, é construída também em grande parte tomando como referência o corpo de outras pessoas. Constitui uma unidade adquirida gradualmente que pode ser alterada e destruída. Implica um esforço contínuo para dar estrutura a algo dinâmico – pois tratando-se de um organismo como um todo, uma alteração numa parte levará a alteração de toda a imagem corporal, visto que esta resulta de novas relações consigo mesmo e com os outros.

Assim, a imagem corporal diz, portanto, respeito ao modo como o indivíduo se vê, como percebe o seu corpo e como integra as partes constituintes, como se relaciona com os outros através do próprio corpo, como se sente em relação a ele, como espera que os outros o vejam, como lida com a imagem que os outros têm a seu respeito, ou seja, que percepções sociais, emocionais e físicas desenvolve em relação ao próprio corpo e constitui-se como um conceito integrante da saúde sexual (Sheppard & Appl, 2008) .

O conceito de imagem corporal tem sido utilizado em estudos sobre doenças e situações da vida que, directa ou indirectamente, afectam a forma, função e aparência do corpo. Na sequência do que atrás se referiu, qualquer perturbação ou mudança orgânica pode levar a uma alteração na imagem corporal do indivíduo, o qual, frente a estas mudanças pode apresentar mecanismos de enfrentamento inadequados para lidar com os sentimentos gerados por estas transformações, podendo então surgir um distúrbio de imagem corporal.

O impacto negativo da imagem corporal em mulheres com cancro da mama está associado a um comprometimento da vida sexual, a um eventual receio de passarem a ser menos desejadas sexualmente e menos atractivas fisicamente, de experienciarem satisfação sexual com menor intensidade, de não se exporem intimamente, por sentimentos de inferioridade e de rejeição, de perda narcísica e por cognitivamente se percepcionarem como não intactas, não completas e não funcionando completamente (Palhinhas, 2000 cit. Ramos & Patrão, 2005), o que constitui um factor agravante na identidade feminina, na auto-imagem e no auto-conceito em que se baseia a atractividade física (Sheppard & Appl, 2008).

Os padrões impostos pela sociedade e incorporados pela pessoa tornam-a susceptível ao que os outros vêem como defeito, levando-a a concordar que ficou diferente do que deveria ser. As mulheres que passam pela mastectomia revelam a necessidade de recuperar o espaço corporal perdido, ainda que reconhecendo que a imagem de um corpo perfeito já não existe mais. Efectivamente, na cultura ocidental, os estados de perturbação relacionados com a imagem corporal da mulher podem ser fonte de distress psicológico e interferir com o funcionamento noutras áreas.

No geral considera-se que o investimento na imagem corporal é mais saliente nas mulheres mais jovens – logo, será também nesta faixa da população feminina que se verificará maior risco de distress psicológico secundário causado pelas alterações estéticas decorrentes do(s) tratamento(s) para o cancro da mama (Helms, O’Hea & Corso, 2008).

As interacções sociais diárias e a interferência dos meios de comunicação social na definição do belo e do atractivo levam a que, no caso da mulher, esta assuma determinados padrões de beleza, ainda que distantes da realidade humana. A par com certos pressupostos emanados pela cirurgia estética, é ditado que para a mulher se sentir atractiva, bela e sexy deverá ser (irrealisticamente) magra, moldar artificialmente as mamas (o que já não interferirá, necesariamente, no aumento de peso) e possuir um cabelo bem tratado (preferencialmente comprido). Face a tais imposições sociais a mulher diagnosticada com cancro da mama não se revê nem é incluída nesta parametrização, já que os respectivos tratamentos resultam habitualmente em ganho de peso, peito desfigurado ou perdido, perda de cabelo.

Em síntese, a imagem corporal é um conceito multidimensional que compreende os processos fisiológicos, cognitivos, psicológicos, emocionais e sociais em constante troca mútua. Esses processos podem ser influenciados pelo sexo, pela idade, pelos meios de comunicação e pela relação existente entre os processos cognitivos e o corpo, tais como crenças, valores e comportamentos pertencentes à cultura. Não obstante, a expressão “imagem corporal” engloba um desenho criado pela mente no qual se evidenciam o tamanho, o conceito e a forma do corpo, todos eles subsidiados pelos sentimentos (Damasceno et al., 2005; Almeida et al., 2005; Ferreira; Leite, 2002 cit. Helms et al., 2008).

Os tratamentos do cancro da mama na vida da mulher podem resultar numa série de reacções ao nível da identidade e da feminilidade, da valorização social, do funcionamento psicossocial como percepcionar o seu corpo desfigurado, a diminuição ou perda de actividade sexual, a auto-confiança, a angústia, o receio e a alteração no comportamento, o humor, a qualidade de vida.

Uma vez que a imagem corporal é construída a partir de comparações internas do self, deste com os outros e com o contexto cultural, o que frequentemente se verifica na clínica é que a mulher passa a percepcionar-se como sexualmente incompleta, mutilada. Frequentemente, sentimentos de inadequação sexual, de funcionalidade alterada, diminuição da libido, de perda de intimidade sexual com o(a) parceiro(a), surgem após o diagnóstico de cancro da mama e persistem até o tratamento estar concluído (Huber, Ramnarace & McCaffrey, 2006).

Quanto maior a importância atribuída pela mulher à imagem corporal e à aparência física mais esta experiencia dificuldade de ajustamento à vivência de cancro da mama e toda a alteração corporal decorrente da doença e dos meios de tratamento (Lichtenthal, Cruess, Clark, & Ming, 2005 cit. Helms et al. 2008).

Estudos demonstraram que pacientes mastectomizadas reportavam mais sentimentos depressivos e mais ideação suicida após a cirurgia, do que doentes submetidas a cirurgia conservadora / lumpectomia. Da mesma forma, investigações anteriores relacionam o disturbio com a imagen corporal com a escolha do tratamento a seguir. Os factores que afectam a decisão da mulher em ser submetida a lumpectomia e radiação ou a mastectomía são determinados pelos efeitos (negativos) na imagen corporal – antecipando-se corpo deformado e perda de feminilidade decorrentes da cirurgia. (Margolis et al., 1989 cit. Helms et al., 2008).

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare - Associação de Psicologia

IMPACTOS DA DOENÇA CRÓNICA NA CRIANÇA (*)

Quando o corpo se torna um lugar de sofrimento

A doença crónica na criança traz alterações no dia-a-dia, com repercussões psicológicas como: angústia, sentimento de anormalidade em relação a outras crianças, culpa sobre os pais, ou mesmo depressão. Com efeito, toda a doença crónica, na criança ou no adulto, coloca questões psicológicas importantes que influenciam e também são influenciadas pelo somático (corpo).

Na doença crónica o corpo torna-se lugar de sofrimento e menos de prazer. É objecto de preocupação e vigilância constantes que implicam alterações de hábitos quotidianos e de qualidade de vida, impacto financeiro, social, escolar, ocupacional e, mais ansiogénico, eminência de morte.

Aquando do diagnóstico da doença, as crianças podem ter diferentes reacções:
– dissociam-se da doença no seu conjunto;
– dissociam-se do que está doente no seu corpo;
– revoltam-se contra a situação que estão a viver e recusam os cuidados (muitas vezes, em negação do seu estado de saúde);
– recebem a terapêutica passivamente, refugiando-se até no sono e mesmo na falta de acção;
– tornam-se mais dependentes dos pais e dos técnicos de saúde;
– assumem a doença, integrando tanto as causas como os efeitos e o respectivo tratamento.

O que de um modo geral se acaba por verificar é que todos estes mecanismos de defesa ou estratégias tendem a atenuar-se aos poucos e estas crianças acabam por encontrar um equilíbrio entre a aceitação do seu estado inevitável e a adaptação (o menos dependente possível), a um elemento novo.

Em termos cognitivos e afectivos verifica-se também empobrecimento da capacidade imaginativa e intelectualidade mais diminuída, o que deriva essencialmente de:
-maior agressividade e dependência por desejo de retorno à figura materna;
– a figura masculina (habitualmente identificada com a autoridade) tende a causar maior ansiedade e inibição na criança;
– relação menos concisa com a imagem corporal;
– incerteza relativamente ao futuro.

A primeira rede de acolhimento, de suporte e de alívio da dor, serão os pais. A criança esperará dos seus progenitores elos de segurança, presença física, amor, tolerância, capacidade de escuta, contenção para a sua angústia.

Então, é expectável que a doença crónica na criança atinja não só esta mas também a sua família. E surgem assim modificações e novas exigências no contexto familiar. Daí que a terapêutica deva prever as relações entre criança – família – técnicos de saúde.

Na criança, a doença crónica (seja ela qual for) pode ser sentida pelos pais como agressão, culpa e até potencial elemento reactivador de (outros) problemas pessoais. Decorre daqui, frequentemente, estados depressivos relacionados com essa decepção, auto acusação, falha narcísica (o bebé / criança imaginário para os pais é substituído pelo bebé / criança real comprometendo, nas suas crenças, a transgeracionalidade).

Igualmente no geral consideram-se as seguintes fases de adaptação psicológica à doença, por parte da família:
– negação da doença no momento do diagnóstico;
– desorganização da família e consequente necessidade de reajustamento familiar às novas rotinas;
– adaptação à doença e aos seus efeitos tendo em conta as características da doença, questões de doenças na família, idade da criança, características da sua personalidade.

Torna-se relevante assumir que a forma como a criança vai lidar com a própria doença depende também da forma como os pais transmitem a sua angústia. Daí muitos autores defenderem que o ajustamento da criança à doença pode depender mais do funcionamento familiar do que da doença em si.

Na fase dos tratamentos é habitual verificar-se uma alteração na relação entre a criança e os pais, uma vez que aquela passa a encarar os médicos e restante pessoal de saúde como figuras de dependência, papel que antes estava só atribuído aos progenitores. Mais uma vez, tal pode exaltar a vivência de problemas de cariz narcísico por parte dos pais.

Estudos revelam que, estatisticamente, são as mães que mais frequentemente acompanham a doença da criança, as que sentem mais as exigências da criança doente e as que se sentem menos apoiadas pelos parceiros e também são elas que, de um modo geral, deprimem mais frequentemente. Ainda considerando as estatísticas, no ajustamento psicológico à doença de um filho, os pais envolvem-se menos (por questões ocupacionais ou por estratégia) e têm níveis de ansiedade mais baixos.

Do lado da criança, na fase do tratamento, esta não deixa de passar por situações potencialmente ou efectivamente traumáticas, sendo aconselhável a presença dos familiares junto da criança.

Já na fase de estabilidade ou de restabelecimento, continua a ser importante o estilo securizante por parte dos pais, o que, sabe-se, nem sempre é fácil conseguir-se, pois estes também necessitam de tempo para adaptação à sua criança restabelecida, além de que a preocupação com o fantasma da repetição do quadro de doença possa levar a comportamentos de oposição do lado dos pais. Nesta altura, a aposta deverá ser a merecida retoma da criança à sua vida do mesmo modo que as outras crianças e privilegiando-se a independência.

 

(*) Artigo publicado na Up to Kids em 25.07.2016 [plataforma de comunicação dedicada à produção de conteúdos para crianças, destinada a pais e educadores.]

Alice Patrício, Psicóloga Clínica, para Up to Kids®

FOBIA SOCIAL

De acordo com o DSM IV (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders / American Psychiatric Association) a Fobia Social no adulto caracteriza-se por:

- Medo acentuado e persistente de situações sociais ou de desempenho nas quais o indivíduo pode sentir embaraço pela sua exposição ou pelo escrutínio dos outros;

- A exposição à situação social ou de desempenho provoca, quase que invariavelmente, uma resposta imediata de ansiedade que, em caso extremo, pode manifestar-se sob a forma de ataque de pânico;

- A situação social ou de desempenho é evitada, embora às vezes seja suportada com pavor e reconhecida como sendo um medo excessivo e irracional;

- O evitamento, o medo ou a antecipação ansiosa quanto a deparar-se com a situação social ou com o desempenho interferem significativamente na rotina diária, no funcionamento ocupacional ou vida social do indivíduo, ou a pessoa sofre acentuadamente por ter uma fobia;

- Em indivíduos com menos de 18 anos, os sintomas devem persistir pelo menos durante 6 meses;

- O medo ou evitamento não se devem aos efeitos fisiológicos directos de qualquer substância ou de uma condição física geral nem são atribuídos a outra perturbação mental (por ex., Perturbação de Pânico, Perturbação de Ansiedade de Separação, Perturbação Dismórfico Corporal, Perturbação do Desenvolvimento Pervasivo ou Perturbação de Personalidade Esquizóide);

- Se uma outra perturbação mental ou condição física geral estiverem presentes.

 Efectivamente, o indivíduo com Fobia Social evita os relacionamentos interpessoais manifestando excessivo temor por situações sociais, com intensa ansiedade (que também pode ser antecipatória), com sofrimento para o próprio e limitando as suas funções no dia-a-dia.

O tratamento da Fobia Social é breve e muito orientado para o momento presente, numa base cognitivo-comportamental, cujo principal objectivo é alterar pensamentos e comportamentos disfuncionais actuais.

Como técnicas podemos recorrer a:

- Reestruturação cognitiva – identificando e questionando pensamentos automáticos (distorcidos) confrontando-os com as evidencias factuais e, seguidamente, substituindo-os por outros pensamentos menos tendenciosos;

- Exposição gradual a situações ansiogénicas;

- Reforço de habilidades sociais – por modelação, feedback correctivo, reforço social ou outras ajustadas;

- Foco na tarefa em execução no momento presente – exercício de atenção e de concentração;

- Exercícios de relaxamento (complementares às outras técnicas).

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare – Associação de Psicologia

DO ACTO AO DELITO - A ADMISSÃO DE CULPA E A MISSÃO DO PSICÓLOGO, NO ÂMBITO CRIMINAL

O acto criminoso constitui uma transgressão (violação de uma regra), todavia, uma qualquer transgressão não é um crime. Já o delito é mais restrito, sendo especificado como cometer uma falta, ter transgredido a lei.

Em casos de transgressão e delito, a missão do Psicólogo é analisar a personalidade do sujeito e em caso algum decidir sobre a sua culpabilidade. O Psicólogo não deve opinar sobre a culpabilidade do acusado, mas antes avaliar se no momento do acto delituoso o sujeito estava debilitado, em estado de demência ou em desequilíbrio grave, assim como se pressente risco de reincidência, ou se pode beneficiar de tratamento.

O sentimento de culpabilidade informa-nos sobre a capacidade de ligar o acto a um quadro moral, pressupõe um certo grau de elaboração interna, informa o Psicólogo sobre a estruturação e a maturação mental daquele sujeito. Contudo, tal sentimento de culpabilidade não é, necessariamente, um bom prognóstico. A culpabilidade pode ser o motor de transgressão e de “recaída” / repetição do acto delituoso. Por outro lado, o sentimento de culpabilidade nem sempre se traduz na procura compulsiva de uma punição pública. Indivíduos com uma moralidade menos valorizada podem tentar escapar-se da sanção penal ao serem confrontados com uma culpabilidade mais interna.

Logo, para o Psicólogo a culpabilidade será uma “prova secundária”. Não é obrigatório que se refira a um acto real nem se coloca a atribuição de verdade. Interpreta-se a mentira, a falta de sinceridade, a manipulação, a ausência de culpabilidade, qualquer uma das características associadas a diagnósticos de personalidade.

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare – Associação de Psicologia

DISTIMIA vs DEPRESSÃO

É comum, mesmo entre profissionais de medicina, considerar-se certos estados diferenciados como Depressão.

Ora, a Distimia é mais uma perturbação com características próprias, ainda que “próxima” de um quadro depressivo. Também no caso da Distimia nos referimos a um “humor perturbado”. Mas o que efectivamente a diferencia é que esta identifica-se com um mau humor contínuo; como se nunca tivéssemos conhecido determinado indivíduo de outro modo que não mal-humorado e dizemos: “é a personalidade dele!”. Ou seja, sendo um quadro contínuo, acabamos por catalogar a pessoa como muito séria, de hábitos rígidos, aborrecida, sem considerar que é um estado patológico e sim uma forma particular de ser.

Já a Depressão caracteriza-se por tristeza patológica, tipicamente com momentos melhores e outros piores, falta de motivação para realização de tarefas básicas do dia-a-dia, podendo ser identificado o momento ou situação específica que a iniciou. No entanto, o facto de uma pessoa ter Distimia não impede que ela desenvolva depressão grave, designadamente quando se verifica ausência de tratamento por desconhecimento de se estar a vivenciar doença.   

Na Distimia o sofrimento não será tão arrasador como na Depressão, mas como é constante acaba por debilitar o indivíduo a ponto de lhe causar perturbação de personalidade.

A sintomatologia de um quadro Distímico passa por:

- Quando só se consegue avaliar o lado negativo das outras pessoas e das coisas (pessimismo como se fosse uma perspectiva realista de ver o mundo);

- Sarcasmo constante;

- Altos níveis de exigência consigo próprio e com os outros;

- Queixume frequente / acreditam que os problemas são imutáveis;

- Fisionomia fechada (“carrancuda”);

- Dificuldade em aproveitar o lado bom da vida;

- Perda de interesse ou de prazer;

- Pouco conversadores;

- Isolamento social;

- Tendem a colocar sempre a culpa dos problemas causados nas outras pessoas;

- Ofensa aos outros / difícil relacionamento social ou de estabilidade relativa;

- Baixa auto-estima;

- Sentimentos de incapacidade e de menos valia;

- Oscilações do humor (irritado ou deprimido);

- Dificuldade em tomar decisões;

- Transtornos do sono / Insónia ou sonolência;

- Dificuldade de memorização;

- Somatizações (ex.: dores de cabeça, fadiga crónica);

- Aumento ou diminuição do apetite;

- Em crianças: irritabilidade, manhas

- Em adolescentes: isolamento, rebeldia, abuso de álcool e de drogas (acreditam que estas substâncias os podem acalmar), irritabilidade.

As causas da Distimia podem encontrar-se em relações familiares insatisfatórias na infância, em pais agressivos e também distímicos, em familiares de pessoas que sofrem de Depressão, Pânico, Perturbação Obsessiva-Compulsiva, em famílias com maior incidência de distúrbios de personalidade, abuso de álcool e drogas, em famílias com doenças incapacitantes, em factores hereditários.

Qualquer situação fora da rotina e do previsto ou insatisfatória pode deixar estes indivíduos com níveis de stress muito elevados e facilmente os transmitem a quem está perto.

Os distímicos têm pouca tolerância para com o mundo e às frustrações e mais uma vez, com efeito avassalador no seu estado de humor. Do lado das outras pessoas é comum adoptarem comportamentos preventivos e evitativos agravando-se ainda mais a disfunção social.

Não é fácil nem frequente a pessoa com Distimia ter noção da sua situação. Nem é comum atribuir maior ou menor satisfação em relação à sua forma de ser – pois para o distímico a insatisfação só é consciente quando identificada com circunstâncias externas. Tal ego sintónico dificulta a adesão ao tratamento. Ou muitas vezes recorrem ao tratamento menos indicado, i.e., o modelo médico que remedeia dores e mal-estar mas raramente diagnostica este problema.

A psicoterapia ou a associação desta com fármacos antidepressivos a par com actividade física regular têm apresentado os melhores resultados, ao centrarem-se na reposição da funcionalidade biológica e em permitir experienciar outras formas de reflectir e de reagir, de ajustar vontades, de reduzir o sofrimento do próprio e consequentemente, de alterar a sua relação com os outros.

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare – Associação de Psicologia

O LUTO NÃO TEM DE SER PATOLÓGICO

foto de Chema Madox

O luto é um processo psicossocial que visa a transferência da perda física e da privação para memórias amenas e harmoniosas, através de fases que necessariamente fazem parte deste processo.

Dificuldades de envolvimento e de integração social no decurso do luto poderão advir de dificuldades em lidar com as fases do processo, na forma como foram prevenidos danos psicológicos, das expectativas geradas em relação ao parente perdido, das diversas abordagens em relação ao luto.

Episódios de melancolia, de agressividade contra o próprio, contra a pessoa perdida, contra outros ou contra a sociedade (às vezes na sequência de pressão ou auto pressão de culpa), de negação, de angústias, quando vividos sozinhos, poderão originar perturbações emocionais e de comportamento muito acentuadas.

O acompanhamento terapêutico pode fazer-se por via farmacológica (comumente antidepressiva), por via da psicoterapia, ou por ambas as vias. Quando se recorre unicamente à medicação, os estudos epidemiológicos vêm revelando que as vivências emocionais indispensáveis ao processamento de cada fase do luto tornam-se secundarizadas e não assimiladas. A pessoa “passa ao lado” dessa vivência necessária, somente a medicação não lhe permite aprender as habilidades cognitivas e é logo colocada numa fase posterior do processo do luto, sem ter incorporado e reorganizado todos os sentimentos, emoções e dor da perda. Ou seja, apesar da finalidade da medicação no combate de sintomas negativos, por si só não os permite resolver. O que no curto prazo pode amenizar, pode não evitar que mais tarde retorne a desorganização emocional por ultrapassagem de estádios. E com isso a patologia.

Neste caso, o apoio psicoterapêutico permite não suavizar ou mascarar sintomas, mas estruturar emoções, adaptar à nova situação, recuperar a auto-estima, considerar projetos futuros, retomando todo o processo do luto e ordenando-o na lógica individual e natural, por caminhos que, por vezes, nunca antes foram percorridos.

 

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare – Associação de Psicologia

FUNDAMENTOS DA INTERVENÇÃO COGNITIVO-COMPORTAMENTAL NO TRATAMENTO DA OBESIDADE

Idealmente dever-se-á encarar o tratamento da obesidade de forma abrangente, multidimensional e cognitivo-comportamental, no sentido de alargar a perspectiva da terapêutica desta doença crónica e combinar a tradicional auto monitorização com a informação, o exercício, a reestruturação cognitiva, a mudança de atitudes e a prevenção da recaída. Os aspectos psicossociais do indivíduo no seu processo de doença e de tratamento, a levar a cabo por uma equipa multidisciplinar, de modo a assegurar o êxito no tratamento e na respectiva manutenção a médio e longo prazo deverão também ser considerados.

Regimes terapêuticos baseados em fármacos podem proporcionar redução de peso numa fase inicial, mas habitualmente não são satisfatórios uma vez que, após a sua finalização, a grande maioria dos pacientes obesos recupera em pouco tempo o peso perdido, chegando a níveis ainda mais altos que os anteriores. Este tipo de insucesso no tratamento desta patologia deve-se, em grande parte, ao carácter unimodal que privilegia uma intervenção biológica, bioquímica e prescritiva, característica do modelo biomédico, em detrimento dos aspectos psicossociais do indivíduo.

As variáveis psicológicas, nomeadamente as de personalidade, parecem ter um papel importante nesta patologia, pelo que uma abordagem terapêutica que contemple as (três) dimensões biopsicossociais do paciente, através de uma equipa multidisciplinar deve ser privilegiada de modo a assegurar o êxito do tratamento e a sua manutenção a longo prazo, contribuindo para a melhoria da saúde, qualidade de vida, bem-estar e satisfação dos indivíduos que dela sofrem.

A compulsão para comer é uma das alterações comportamentais mais perturbadoras, sendo o ritual alimentar acompanhado, entre a maioria destes pacientes, por reações emocionais de irritabilidade, desinibição e raiva. Vários autores referem outras complicações psicológicas associadas à obesidade, como por exemplo, a distorção da imagem corporal, a baixa auto estima, a discriminação / hostilidade social, os sentimentos de rejeição e exclusão social, problemas funcionais e físicos, história de abuso sexual, perdas parentais precoces, história familiar de abuso de álcool, ideação suicida, problemas familiares / conjugais, sentimentos de vergonha e auto culpabilização, agressividade / revolta, insatisfação com a vida, isolamento social, absentismo, psicossomatização, entre outros. Por outro lado, a pressão sociocultural para a magreza, numa sociedade em que a aparência e a imagem corporal ganham cada vez maior relevo, não apenas nas passerelles mas também na escola, na rua e mesmo nos ginásios e instituições desportivas podem contribuir para o confronto (adicional) com a depressão, a ansiedade, a baixa auto estima, o isolamento social. Não é difícil, portanto, compreender a necessidade de apoio e suporte emocional destas crianças, adolescentes ou adultos. Em suma, esta doença classificada como perturbação física é muito influenciada (e complexa), na sua etologia e evolução, por questões psicológicas, além de médicas, sociais e comportamentais, que funcionam conjuntamente com um impacto fortíssimo na pessoa obesa.

Os indivíduos obesos recorrerão à comida como estratégia face ao stress e ansiedade e, sobretudo, ao défice de afecto, comunicação, dedicação e estruturação familiar. Contudo, os aspectos emocionais e psicológicos que, no geral, a pessoa obesa pode apresentar, identificam-se como causa ou consequência da sua condição de obeso, concomitante a uma condição clínica e educacional alterada.

Por outro lado, quando aderem a dietas de baixo valor calórico, a culpa sentida ao falhar na persecução da dieta, a preocupação que acompanha a dieta e a interferência que ela causa nas actividades sociais pode provocar stress em qualquer pessoa que realize um regime alimentar mais restritivo e não só em obesos.

A abordagem cognitivo-comportamental incide na modificação de significações e comportamentos desadaptativos associados à obesidade e também, na implementação de estratégias de coping para se lidar com a doença e com a resposta emocional. Esta intervenção parte do pressuposto de que a obesidade inclui uma alteração da aprendizagem que leva à ingestão excessiva de alimentos e a avaliação e correcção dos pensamentos inadequados, que contribuem tanto para a etiologia quanto para a manutenção da obesidade são procedimentos disparadores e frequentes no processo psicoterapêutico para a modificação comportamental.

Os sistemas de crenças do indivíduo obeso determinam sentimentos e comportamentos desencadeados por pensamentos disfuncionais acerca do peso, da alimentação e do valor pessoal, levando-o a desenvolver pensamentos dicotómicos, supersticiosos, catastróficos ou generalizações, por exemplo, a crença de que ser magro está associada a autocontrolo, competência e superioridade, o que interfere directamente na auto-estima da pessoa, ou mesmo, a crença de que ser magro é fundamental para a solução de problemas da vida.

Então, os objectivos principais da Terapia Cognitivo-Comportamental são: (1) Percorrer o grau de motivação do doente para o tratamento da obesidade; (2) Tentar diminuir o stress a que o paciente é sujeito no dia a dia; (3) Dar uma educação nutricional ao paciente para que este possa atingir o peso ideal e os objectivos terapêuticos sem efeitos secundários graves; (4) Ensinar acções para que o doente possa evitar a desordem na alimentação potenciando a criação de hábitos saudáveis; (5) Fazer com que o paciente seja o “actor principal” no controle do seu tratamento para comprometimento com os objectivos estipulados; (6) Minimizar a dificuldade que o doente tem, nos primeiros estágios de tratamento, de lidar com a nova dieta saudável e com a prática de exercício físico.

No geral, a investigação tem provado o sucesso desta terapia na mudança dos comportamentos alimentares não saudáveis, na correcção de crenças e atitudes disfuncionais sobre o peso, no aumento da satisfação corporal, na promoção de competências comportamentais e cognitivas facilitadoras do controlo de peso e do bem-estar pessoal, na promoção de estratégias de confronto com a recaída. Pelo contrário, a aplicação de outras terapêuticas como a baseada na Teoria da Restrição poderão ser contraproducentes, já que o obeso não deve ser (só) encorajado a restringir a alimentação, designadamente, quando a obesidade não é causada por alimentação excessiva. E, se a restrição alimentar for recomendada como forma de cura, o excesso alimentar (desinibido) pode constituir uma recaída, proporcionada pela crença disfuncional subjacente do “tudo ou nada” (pensamento dicotómico), pela negação do próprio prazer, por uma menor auto estima, pela auto culpabilização, pelo humor negativo, por mudanças cognitivas (no caso, restrição cognitiva) e com a inevitável resposta de comer em excesso...

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare - Associação de Psicologia

STRESS OCUPACIONAL – DOENÇA TÍPICA DAS SOCIEDADES INDUSTRIALIZADAS

O stress ocupacional é uma doença típica das sociedades industrializadas, apesar de aceite como inevitável, actualmente. É responsável por cerca de 25% da taxa de absentismo, durante duas ou mais semanas. Tal parece um contra-senso, quando o que “está em jogo” são exigências de produtividade, de redução de custos, de relações de trabalho, da estrutura política, da influência entre a vida pessoal e profissional.

No entanto, será importante lembrar que nem sempre as reacções ao stress são negativas, sendo às vezes necessário que o fenómeno aconteça a um certo nível, para bem da motivação, do crescimento e do desenvolvimento industrial (o eustress).

O stress tem vindo a ser definido como variável independente /estímulo, dependente / resposta e como processo / interacção entre o estímulo e a resposta, que produz o desequilíbrio entre a pessoa e o meio envolvente (Cooper, Dewe & O’Driscoll, 2001, citado em Cunha e Rego, 2007).

No geral, o stress ocupacional é entendido como uma perturbação decorrente, sobretudo da mobilização excessiva da energia adaptativa do indivíduo perante as solicitações do meio – em particular, o stress ocupacional será um conjunto de perturbações psicológicas (sofrimento) associado às experiências de trabalho (distress).

O Guia do Stress Ocupacional da Comissão Europeia refere que “(…) O stress é causado pelo desajustamento entre nós e o nosso trabalho, pelos conflitos entre os nossos papéis relacionados com o trabalho e outros papéis exteriores, e pela ausência de um razoável grau de controlo sobre o nosso próprio trabalho e a nossa vida.”

Na literatura científica, o modelo biológico (clássico) de Selye (1956) entende o stress como uma condição interna do organismo. No geral, outros autores associam o stress ocupacional a sofrimento psíquico (Laville e Teiger, 1975; Dejours, 1984; Dejours, 1987), em que as estratégias de coping não estão proporcionalmente equilibradas com o nível de exigências apresentadas – perturbando a capacidade de auto-regulação emocional, a capacidade de autocontrolo da pessoa e não permitindo que esta tenha condições de gerar, por si própria, os recursos necessários à gestão do seu stress (Cox, 1985; citado em Sousa, 1988, p.2).

Em 1983 Cooper definiu o stress ocupacional como “um problema de natureza perceptiva, resultante da incapacidade de lidar com as fontes de pressão no trabalho, com consequências na saúde física e mental e na satisfação no trabalho, afectando o indivíduo e as organizações.” (citado por Guimarães, p.123, 2000): O stress ocupacional é então “a interacção das condições de trabalho com as características do trabalhador, de tal modo que as exigências que lhe são criadas ultrapassam a sua capacidade em lidar com elas” (Ross e Atmaier, 1994; citado em Vaz Serra, 1999, p.474).

Para Seger (2001) a tentativa de adaptação do organismo à situação falha quando o repertório pessoal de respostas comportamentais é insuficiente (stress).

Assim, o stress não está limitado à pessoa ou à situação, mas resulta da interacção entre as duas. Constitui um processo transaccional de desajustamento físico, psicológico e comportamental entre a pessoa e a sua envolvente, com consequências negativas para o indivíduo e para a organização (Cunha e Rego, 2007).

Além de que, de acordo com os três principais modelos teóricos de stress ocupacional (Modelo dos Acontecimentos de Vida, Modelo de Ajustamento Pessoa – Ambiente e Modelo Exigência – Controlo) infere-se que: (1) a percepção de stress é subjectiva, isto é, o stressor poderá ser percebido de forma diferente e com intensidade diferente por distintos indivíduos; (2) o trabalho e as organizações constituem-se como potenciais fontes de pressão; (3) o papel individual no ciclo de stress é activo; (4) o stress ocupacional tem consequências psicológicas, fisiológicas e comportamentais. Aliás, de acordo com Cohn & Marsiglia (1993), não será o próprio trabalho que se torna nocivo e perigoso, mas a forma como é organizado e gerido pelos próprios homens.

As grandes causas de stress no trabalho são organizacionais ou exto organizacionais, que se influenciam mutuamente (positiva ou negativamente) – não será, portanto, uma verdade absoluta quando se diz que os problemas do trabalho ficam à porta de casa e vice-versa. Na relação com variáveis organizacionais (p.ex., dimensão, tecnologia, número de níveis hierárquicos, grupo ocupacional a que se pertence) estes antecedentes fazem aumentar a probabilidade de existência de stressores nas organizações, nomeadamente, as características do papel (ambiguidade, conflito, sobrecarga ou sub-utilização do trabalhador, conciliação com as exigências familiares), as características da tarefa, o estilo de liderança (em particular, os estilos autocráticos e autoritários têm sido associados a strain), as relações de trabalho (porque são naturais as necessidades de aceitação e reconhecimento por parte de colegas, superiores ou subordinados), a estrutura e clima organizacional (centralização, formalização, política de tomada de decisão, abertura de comunicação, justiça organizacional e o tipo de ocupação) e as condições físicas do trabalho (barulho, calor, vibração, espaço, privacidade ou existência de agentes patogénicos).

Todo o trabalho possui agentes potencialmente stressores, que podem ser intrínsecos e extrínsecos ao próprio trabalho, decorrentes do papel do indivíduo na organização, do seu relacionamento interpessoal, da satisfação sobre a carreira profissional, do clima organizacional, da interferência casa / trabalho (e vice-versa).

É da múltipla relação entre o comportamento organizacional promovido e o tipo de personalidade do indivíduo, as suas expectativas, necessidades, interesses, a sua experiência e formação, que se promove, ou não, o stress.

Os resultados do stress ocupacional nas Organizações ligam-se, directa ou indirectamente, às características físicas e mentais dos indivíduos. Directamente resultam, por exemplo, no nível de absentismo, no aumento da taxa de rotatividade, numa menor performance dos trabalhadores, no aumento do número de acidentes de trabalho e de erros de produção. Indirectamente, estão associados às reduções na motivação, na moral, na (in)satisfação no trabalho, na menor disponibilidade e flexibilidade para se responder atempadamente, na degradação das relações de trabalho, às falhas de comunicação, a erros na tomada de decisões.Em termos qualitativos, é previsível que os custos a médio e a longo prazo serão: insatisfação organizacional, rotatividade, imagem negativa da empresa enquanto entidade empregadora.

Todavia, as organizações poderão desenvolver alguns programas de gestão do stress ocupacional:

- Faseadas no (1) diagnóstico de stressores; na (2) intervenção (integrando variáveis moderadoras e respectivas consequências); e a (3) avaliação (relação objectivos – custos envolvidos);

- Individualmente, apoiando as pessoas que já estão a sofrer de stress, com desenvolvimento de estratégias de coping (numa perspectiva de tratamento /resposta);

- Organizacionalmente, actuando preventivamente a nível primário, secundário e terciário – respectivamente, anterior ao aparecimento do sintoma;

- Em acções que procurem reduzir os efeitos de stress em pessoas que já apresentam sintomas;

- Na recolocação e acompanhamento de pessoas já gravemente atingidas, que tiveram (longos) períodos de afastamento do trabalho.

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare – Associação de Psicologia

ABORDAGEM PSICOEDUCATIVA NO CONTEXTO DA PSICOLOGIA CLÍNICA E DA SAÚDE

A Psicoeducação constitui uma forma interventiva estruturada, didática e sistemática, no âmbito das vertentes da Psicologia: Educacional, Social e Organizacional e Clínica e da Saúde. No caso específico da área clínica, atuando-se sobre uma perturbação ou tratamento, pretende-se alertar o indivíduo para os aspectos promocionais da saúde e preventivos da doença, assim como capacitar o paciente e/ou os familiares / cuidadores na gestão de (novas) situações decorrentes da doença já instalada.

Estudos vêm demonstrando que as intervenções psicoeducativas têm sido eficazes em doenças crónicas ou no processo de envelhecimento e demência, quer na redução de sintomatologias, quer no aumento da compreensão e adesão aos tratamentos. Por exemplo, ao nível da perturbação bipolar, da depressão, de psicoses, na doença oncológica, no HIV/SIDA, na doença degenerativa, na dor, no comportamento alimentar, em situações de doença aguda, entre outras, a Psicoeducação assume-se como um modelo que potencializa outros resultados terapêuticos (farmacológicos, psicofarmacológicos, fisiátricos) e em alguns casos reduz o número de internamentos hospitalares, na medida em que, conforme a especificidade de cada doença, o paciente e cuidadores passarão a ter mais conhecimento sobre a doença em si, adopta(m) estratégias e aprende(m) a gerir melhor situações de crise, o stress associado é reduzido, lida(m) mais adequadamente com as rotinas decorrentes e, no geral, valoriza-se o papel social do paciente.

Podendo ser praticada em meio familiar ou institucional, esta metodologia aposta na activação de recursos emocionais, sociais, materiais considerando-se o contexto biográfico, além de que contribui para manter e/ou criar uma rede social de apoio. O paciente e a família / cuidadores são dotados de ferramentas que lhes permitam considerar a vulnerabilidade percebida para um comportamento de saúde, reorganizar a sua identidade face à condição funcional e psicossocial adversa (enquanto indivíduo e enquanto família), adequar expectativas e valorizar os resultados sobre um comportamento alternativo ajustado.

Neste âmbito da Psicologia Clínica e da Saúde, a abordagem psicoeducativa, em geral, deve privilegiar a pessoa em vez da (sua) doença, a relação doente ou idoso – família ou rede social e, inclusivamente, a saúde mental dos cuidadores. Para a maior assimilação dos comportamentos positivos e extinção dos não desejáveis, devem ser ressaltadas orientações sobre técnicas de reforço, identificar-se os aspetos psicológicos e sociais que são simultaneamente causa e consequência na variação do estado de saúde e de bem-estar e que recursos o indivíduo e cuidadores (e até mesmo, a comunidade) dispõem e / ou devem adquirir com vista a uma intervenção eficaz perante o novo estilo de vida e face ao impacto da doença no ânimo e funcionalidade da pessoa.

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare - Associação de Psicologia

PERTURBAÇÃO HISTRIÓNICA DA PERSONALIDADE

A Perturbação Histriónica da Personalidade manifesta-se, geralmente, no início da idade adulta e as suas características podem prevalecer a longo prazo.

Os indivíduos histriónicos buscam ser sempre o centro das atenções. Manifestam uma emocionalidade excessiva e invasiva, ao mesmo tempo que recorrem à sedução, a um estilo dramático nas relações interpessoais, à socialidade, ao encanto, à busca por novidades, à impressionabilidade, à tendência para a somatização (sintomas / queixas físicas). Os devaneios românticos são comuns e o limiar de frustração é bastante baixo quando as coisas não correm conforme pretendem.

De acordo com o DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, American Psychiatric Association) considera-se que um indivíduo possui Perturbação Histriónica da Personalidade (PHP) se manifesta 5 ou mais dos seguintes critérios:

  1. Sente desconforto em situações nas quais não é o centro das atenções.

    - Efectivamente tendem a chamar a atenção sobre si mesmos e podem, de início, encantar as pessoas com quem travam conhecimento, dado o seu entusiasmo, aparente franqueza ou capacidade de sedução. No entanto, quando crêem que não são o centro das atenções / “o dono da festa” sentem-se desconsiderados ou desconfortáveis e podem centrar-se na busca de recursos para elevar a um nível mais dramático a sua necessidade – por exemplo, fazer uma cena, inventar histórias, ou outros gestos e ameaças que servem para chamar a atenção e coagir os outros a um maior envolvimento. Podem afastar amizades devido às suas exigências de constante atenção.

  2. Frequentemente, a interação com os outros caracteriza-se por um comportamento inadequado, sexualmente provocante ou sedutor.

    - A sua aparência física e comportamentos dirigem-se não apenas às pessoas pelas quais o indivíduo demonstra interesse sexual ou romântico, como também ocorre no âmbito dos relacionamentos sociais e profissionais, neste caso, para além do que o normativo social ou códigos éticos e deontológicos consideram como adequado.

  3. Exibe mudança rápida e superficialidade na expressão das emoções.

    - Como utilizam constantemente a aparência física para chamar a atenção, a sua expressão emocional apresenta rápidas mudanças e pode ser superficial (ainda que exagerada). Podem chegar a uma excessiva exibição pública de emoções que pode embaraçar amigos e conhecidos (ex: abraçar efusivamente conhecidos com quem têm pouca ou nenhuma confiança; soluçar incontrolavelmente em circunstâncias sentimentais de menor importância; ter ataques de fúria), assim como podem manifestar teatralidade ou auto dramatização.

  4. Usa consistentemente a aparência física para chamar a atenção sobre si próprio(a).

    - É também comum desenvolverem relacionamentos deficientes com pessoas do mesmo sexo, porque o seu estilo interpessoal sexualmente mais provocante pode parecer uma ameaça aos outros.

  5. Tem um estilo de discurso excessivamente impressionista mas pobre em detalhes.

    - Cognitivamente são superficiais e pouco detalhistas. Muitas vezes iniciam um projecto com grande entusiasmo mas o seu interesse pode desaparecer rapidamente.

  6. Exibe auto dramatização, teatralidade e expressão emocional exagerada.

    - Frequentemente deprimem quando não se sentem o centro das atenções. Ávidos por novidades, estimulação e excitação, tendem a entediar-se com todo o tipo de rotinas. As suas acções são dirigidas para a obtenção de satisfação imediata, pelo que demonstram intolerância ou frustração por situações que envolvem um adiamento da gratificação. Forte dependência emocional. São tão enérgicos como inconstantes, exigentes e manipuladores. Dramáticos para impressionar os outros. Intempestivos e não raras vezes pouco sinceros, o que leva a comprometer as suas competências sociais e ocupacionais. Sem se darem conta disso, frequentemente nos relacionamentos românticos ou sexuais representam o papel de “vítima” ou de “princesa”.

  7. É sugestionável, ou seja, é facilmente influenciável pelos outros ou pelas circunstâncias.

    - Sugestionabilidade em alto grau! São ingénuos e crédulos. As opiniões e os sentimentos são facilmente influenciados pelos outros e por tendências do momento. Inclusivamente, em geral confiam que grandes figuras de autoridade oferecem soluções milagrosas para os seus problemas e daí tenderem a submeter-se a intuições ou a adoptar prontamente determinadas convicções.

  8. Considera os relacionamentos mais íntimos do que realmente são.

    - Tal verifica-se tanto ao nível dos relacionamentos sociais como ao nível dos relacionamentos românticos ou sexuais e podem tentar controlar o outro através de manipulação emocional ou sedução, por um lado, enquanto manifestam acentuada dependência, por outro lado.

Ainda que com critérios distintos, como perturbações ou co-morbilidades associadas à personalidade histriónica contam-se: perturbações de somatização, depressão, perturbação narcísica, perturbação dependente, perturbação borderline, abuso de substâncias.

 

TERAPIAS (mínimo 1 a 3 anos de duração)

- Terapia Psicodinâmica (Psicanálise): terapia de longo prazo que visa abordar os conflitos latentes do indivíduo com PHP e ajudar a diminuir a sua reactividade emocional.

- Terapia Cognitivo-Comportamental: terapia que visa reduzir os pensamentos disfuncionais do indivíduo com PHP, designadamente ao nível do pensamento sugestionável. Utiliza ainda: técnicas de modelação para que o(a) paciente melhor se aperceba do efeito do seu comportamento teatral sobre os outros; treino da assertividade para poder lidar melhor com os seus recursos; técnicas de relaxamento com efeito sobre os pensamentos automáticos, designadamente os relativos a sentimentos de inferioridade.

- Terapia de Grupo: através de role-playing que averigua as relações interpessoais e os seus resultados.

- Terapia Familiar: treina a afirmação perante os conflitos (em vez de os evitar), falando directamente com outros membros da família. Por outro lado, esta Terapia Familiar apoia os elementos da família a lidarem com o indivíduo com PHP, sem precisarem de compactuar com o comportamento histriónico do indivíduo e com as suas crises dramáticas que (de forma manipuladora) pretendem manter a ligação da família.

A farmacologia só constitui uma terapia para indivíduos com Perturbação Histriónica da Personalidade se daqui decorrerem outras co-morbilidades, como por exemplo, depressão major.

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare – Associação de Psicologia

BENEFÍCIOS DAS INTERAÇÕES SOCIAIS NO DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM

As interações sociais desempenham um papel relevante na apreensão de conhecimentos e na aquisição de competências, na socialização e na afectividade. Aprende-se a respeitar os ritmos dos outros, a gerir as relações com os outros, assumindo cada um, em momentos diferentes, a liderança da díade. Ganha-se uma maior capacidade de verbalização ao explicar-se ao par o seu raciocínio. Aprende-se a fazer conjeturas e a testá-las, mas aprende-se também que nem sempre se tem razão e que também se cometem erros, que é necessário remodelar ou ter-se novas ideias.
Se por um lado há efeitos a nível cognitivo, da apreensão dos conhecimentos e aquisição de competências - os sujeitos são confrontados com outras estratégias de resolução, o que os incita a descentrarem-se das suas posições iniciais (desestabilização, segundo uma perspectiva procedimental) e a terem de compreender outras formas de abordar o mesmo problema, que conduzem a raciocínios diferentes dos seus, fazendo-os apreender (em conjunto) mais conhecimentos e adquirir mais competências, verificando-se mais ganhos com a participação activa na tarefa - por outro lado, num processo interactivo nem tudo é cognitivo. Os próprios conflitos gerados pela resolução dos problemas são também sócio–cognitivos, já que pressupõem que o sujeito seja capaz de gerir a interação, de decidir quem a lidera, de chegar a consensos, de dar oportunidade ao outro de expor os seus pontos de vista. Interagir significa também saber evitar os conflitos afectivos, aprender a respeitar os sentimentos dos pares, saber como eles reagem às nossas intervenções, ganhar resiliência. Quando não existe convergência de opinião, se discute e se apresentam os argumentos e contra-argumentos, confrontam- se diferentes pontos de vista. Logo, muito do que acontece durante as interações permite desenvolver as competências sociais dos sujeitos – embora nem todas as tarefas desenvolvidas garantam aprendizagem; o modo como se faz pode fazer toda a diferença, assim como o funcionamento sócio-cognitivo da díade.
O trabalho de grupo será, então, um importante factor na promoção de melhores desempenhos e, ao contrário do que defendia Vygotsky (1896 – 1934), será verdade tanto para o elemento mais competente como para o menos competente (díades assimétricas), verificando-se ser também uma realidade em díades simétricas. Por exemplo, para que se promovam competências de argumentação, deve-se privilegiar a complementaridade de competências – o que acaba por contribuir para a promoção da auto-estima e para o desenvolvimento de competências.
Todavia, as interações entre pares não são a única solução - mas tem enormes potencialidades para que os resultados obtidos na aprendizagem sejam animadores. Dados mostram que muitas crianças com incapacidades físicas, sensoriais ou intelectuais têm dificuldades nas relações interpessoais (Spence e Donovan, 1998). Assim, será importante considerar o nível de desenvolvimento da criança, a respectiva execução adequada dos procedimentos e os comportamentos específicos associados à competência social.
É preciso identificar como se chega a uma intersubjectividade comum, como se negoceiam significados. Por exemplo, não basta sentar duas crianças ao lado uma da outra para que se estabeleça uma boa interação – ou se fomente uma interação simétrica. É necessário conhecer os critérios de formação das díades que podem maximizar as potencialidades de cada um dos elementos do par, promovendo assim o seu desenvolvimento ou a aprendizagem.
Com vista à promoção de interações sociais entre pares, levando os intervenientes a aprender, a fazer conjecturas e a defender as suas argumentações, será conveniente flexibilizar preocupações (formativas que se sobrepõem às avaliativas), porque há todo um percurso que deve ser tido em conta e não apenas alguns momentos pontuais.
Em suma, nos vários contextos precisamos de aprender a gerir de forma eficaz as nossas interações com os pares. E para apreender um saber socialmente construído, é preciso fazer uma desconstrução desse saber e uma posterior reconstrução. E é neste duplo processo, em que o sujeito atribui significados pessoais, que as interações sociais têm um papel fundamental.

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare – Associação de Psicologia

PERSONALIDADE NARCÍSICA - A GRANDIOSIDADE TORNADA PERTURBAÇÃO

O sujeito narcísico entende que tudo o que ele vê é tudo o que existe. “Sou só eu e mais nada!” Há uma negação e distorção da realidade, conforme é conveniente ao próprio.
A culpa nunca é sua, mas do outro, que não é reconhecido mas idealizado.
Com arrogância afasta o outro, o que acaba por se virar contra si próprio pois a situação criada torna-se insuportável. Com isso vivencia inveja, anulando assim o que sente no outro para que não enfrente o vazio. Ou seja, destruir algo que se deseja, mas que não se tem condições de ter.
Compensa esse sentimento de falta confundindo o interno e o externo, o “eu” e o outro, logo, verifica-se uma extrema dificuldade em desenvolver uma relação afectiva com o outro, em empatizar, criando-se um padrão instável ao nível dos relacionamentos sociais. Se por um lado o narcísico acredita que quem o rodeia não o entende nem o valoriza devidamente, por outro, reconhece que os outros o acham pretensioso e isso agrava a sua relação com o mundo.
É vulgar existirem muitas pessoas com personalidade narcísica “colecionadoras” de títulos académicos. Aqui a capacidade intelectual não está relacionada com a capacidade emocional. Aliás, o afecto é percepcionado como falta e por isso este sujeito defende-se, habitualmente, através de mecanismos que lhe permitem “esconder” tal falta.
O exibicionismo, esse investimento ilusório e grandioso, surge como tentativa para se ser reconhecido e também para evitar a depressão. Ou o sentimento de depressão. Porque experienciar tal sentimento remete-o para o desamor, para o vazio interno que para si é negro e ruinoso.


Alice Patrício
Psicóloga Clínica | PsicoMindCare – Associação de Psicologia

 

TRANSTORNO DE HIPERACTIVIDADE E DÉFICE DE ATENÇÃO (THDA) NEM SEMPRE DEVIDAMENTE DIAGNOSTICADO!

O diagnóstico de núcleos de insegurança relacionados com ansiedade difusa não significa, necessariamente TDAH (Transtorno de Défice de Atenção e Hiperatividade) na criança.
A motricidade surge muitas vezes como mecanismo de defesa primário para minorar a dor psiquica. A terapia não passa, necessariamente, por fármacos.
Maior impulsividade, tendência a realizar tarefas de forma rápida e superficial, distrair-se facilmente com estímulos ambientais externos, excessiva expressão verbal, aborrecer-se facilmente com as tarefas, remissão para o imaginário PODEM ser características compatíveis com sintomatologia primária ansiogénica que a criança vivencia e uma forma de evitar o confronto com o conflito interno (defesa maníaca).
Pais, educadores, pedopsiquiatras, vamos tratar a verdadeira causa sem ir pelo caminho mais fácil, por sinal o mais nefasto, neste caso: a medicação.

 

Alice Patrício

Psicóloga Clínica | PsicoMindCare - Associação de Psicologia